SOPA DE POESIA: GUSTAVO FELICÍSSIMO


o sopa de poesia mudou de endereço:

http://sopadepoesia.blogspot.com/

 



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 15h27
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TRÊS PERGUNTAS PARA

AGENOR GASPARETTO

SOCIÓLOGO, CONTISTA E EDITOR

 

 

Gustavo Felicíssimo – Gaspa, quanto a literatura que você produz possui da visão do sociólogo? Em outras palavras, dissocia-se o contista do sociólogo?

Agenor Gasparetto – Apenas produzi uma obra. Afora, isso, somos um todo, uma unidade, ainda que, às vezes, estilhaçada, fragmentada sob o peso dos múltiplos papéis que desempenhamos. Separações são arbitrárias, artificiais. É claro que a condição de sociólogo, consciente ou inconscientemente interfere no texto, embora não tenha intenções. Ao escrever, quis contar histórias. Conscientemente, no livro que escrevi, de sociólogo há apenas a inspiração original, a tentativa de homenagear um sujeito que fracassou no grande centro e que regressa para sua terra de origem para, em última análise, viver seus últimos dias e morrer. Adonias Filho, após conquistar as glórias na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, passou com sua parceira seus últimos anos de vida em Inema, perdido distrito do município de Ilhéus. Contudo, há uma diferença essencial: Adonias Filho voltou por escolha e não em razão da falta de uma, que é o caso dos meus “Regressantes”.

 

GFO Gasparetto editor está tendo motivos para sorrir?

AG – O mercado editorial é difícil para quem é pequeno, em um interior da Bahia. Contudo, a cada dia estamos dando o passo do dia e continuamos seguindo nosso caminho, não exatamente em uma Via Láctea de estrelas, mas tampouco em uma Via Crucis, apenas numa Via Litterarum.

 

GF – Todos os dias têm notícia de alguma editora brasileira sendo comprada por conglomerados estrangeiros, mas ao invés de autores brasileiros serem traduzidos e publicados lá fora, acontece justamente o contrário, sem nenhuma contrapartida, os desconhecidos de lá é que aportam aqui. Nosso mercado editorial está sendo colonizado da mesma forma que aconteceu com outras atividades financeiras?

AG – Nosso mercado financeiro é um dos menos globalizados. Se o fosse, o tom e o rufar dos tambores da atual crise seria outro por aqui. Bem, são regras do mercado. O mercado costuma ser cruel com os sonhadores, sejam eles escritores ou editores ou estejam eles em qualquer outro campo da atividade humana. E, no entanto, são os sonhadores que agregam um diferencial. Enfim, o mercado tem uma dimensão predatória muito forte. Creio que por trás da compra de editoras esteja a tentativa de melhorar as condições para abocanhar as edições de livros do MEC. Essa conta vale muito para quem é grande. E, convenhamos, se trata de conta medida em milhões, dezenas e, às vezes, centenas de milhões de exemplares. Quanto ao que se edita, grandes editoras têm olhos para mercados grandes. O que é local precisa de alternativas locais para emergir. E não entra em questão aqui a qualidade. A qualidade pode não estar necessariamente no mundializado, ou ao menos, difundida amplamente para um domínio lingüístico, como o espanhol, por exemplo, mas exatamente no profundamente local. Somente a persistência e o tempo poderão transformar um valor literário social e historicamente situado num fenômeno mais amplo, nacional ou mesmo mundial. Contudo, aqui estamos no plano da exceção, não na regra. Em suma, para quem é pequeno, o processo é lento, difícil, mas possível. No longo prazo, somente o universal sobreviverá e este poderá ser o local de hoje e não o transformado em fenômeno de vendas, em função do marketing e da mídia. E isto é ruim para o escritor de talento, porque acaba sendo nome de suntuosas obras arquitetônicas quase sempre depois de morto, virando grife valiosa, e quando em vida seria expulso até de seus passeios. Ironias do destino. 

 

Blog do Gasparetto:

http://agenorgasparetto.zip.net/



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 19h39
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TRÊS PERGUNTAS PARA

ALEILTON FONSECA

POETA, CONTISTA E ROMANCISTA

MEMBRO DA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA

 

 

Gustavo Felicíssimo – Para você, Aleilton, quais podem ser as chaves de acesso à poesia?

Aleilton Fonseca – O acesso à poesia se dá por dois fatores iniciais. Primeiro, por indução e incentivo à leitura, através de recomendações de um leitor mais experiente, sejam pais, parentes, amigos, professores. Depois, esse acesso se dá através da sensibilidade pessoal, quando a própria pessoa, uma vez iniciada na leitura de poemas, vai fazendo suas descobertas e ampliando paulatinamente a sua experiência de leitura e de compreensão de obras e autores, tornando-se um leitor cada vez melhor. Nem todas as pessoas se identificam com a natureza do texto lírico, embora algumas vezes na vida possam experimentar momentos de percepção e fruição poéticas. Gostar de ler é uma tendência que precisa ser estimulada. Gostar de ler poesia é uma vocação rara, quase um dom; um sopro de uma sensibilidade especial. O acesso à poesia é misterioso; exige uma conjugação de sensibilidade, inteligência e capacidade de percepção para além do lógico, prosaico e cotidiano.

 

GF – A poesia é a legítima defesa do poeta?

AF – A poesia é a legítima defesa e a condenação do poeta. Se perder a voz poética, ele pode entrar em sofrimento existencial. Anula-se, tornando-se um ser comum, em meio à multidão sem rosto. Por outro lado, o exercício da poesia o torna um ser marcado, para quem os homens práticos olham com desconfiança e disfarçada comiseração.

 

GF – Que relações você percebe estabelecer entre a sua obra em prosa e a sua poesia?

AF – A princípio, prosa e poesia são diferentes modos de produzir linguagem literária; mas já não se repelem entre si; ao contrário, muitas vezes se juntam, amalgamam-se, na poesia prosaica, na prosa poética, na narrativa lírica, no poema narrativo. Na modernidade, definitivamente a prosa e a poesia fizeram as pazes; uma convoca a outra para andarem juntas nos textos. Tanto na poesia como na prosa, eu penso que sou um autor que parte de leituras da tradição moderna para dizer algo novo numa linguagem ao mesmo tempo trabalhada e acessível, simples e comunicativa. Quero ser simples, sem ser simplório. Meu objetivo não é complicar; mas sim encantar e impressionar o leitor. Mesmo que isso o incomode um pouco. Literatura é um diálogo cifrado à distância, no tempo e no espaço. O escritor escreve o que pensa e sente estar escrevendo; o leitor lê o que pensa e sente estar lendo. Cada qual forja seu texto, sua leitura, sua compreensão pessoal e intransferível do texto e da vida. O que lemos e sentimos, hoje, no texto de Dante, será o mesmo que ele pensou e sentiu ao escrever? Não, definitivamente não. Literatura é este mistério simples e insondável.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 14h07
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Se existe um termo problemático é esse pós-modernidade. Surgiu na arquitetura significando exaustão das formas lisas, planas, limpas do futurismo e modernismo mais uma proposta de recuperação de estilos antigos. Uma fusão, apropriação de formas. Na literatura isto foi empregado de maneira confusa e contraditória. Uns espertos andaram se chamando de pós-moderno na literatura, para faturarem o dernier cri. Nas artes plásticas é ainda mais confuso, se mistura com várias coisas. De uma maneira geral, os ensaístas e historiadores dizem que a pós-modernidade atingiu seu apogeu nos anos 80 e começou a decair. Então, o pobre estudante vai se indagar: Onde estamos agora? Na pós-pós? Por essas e por outras é que Umberto Eco, numa discussão com o pós-moderno Richard Rorty, foi logo ironizando e dizendo que ele, Umberto Eco, era pós-antigo, e deu vários exemplos de como vários itens dessa ideologia existiam na antiguidade sob outros disfarces.

 

Affonso Romano de Sant’Anna em entrevista nos "CADERNOS DE PSICANÁLISE" SPCRJ (SOCIEDADE DE PSICANÁLISE DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO)

Blog do Affonso: http://www.affonsoromano.com.br/

 



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 15h57
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A catástrofe dos Cursos de Letras

                                        Por Marcos Bagno

 

A formação dos professores de português, hoje no Brasil, é uma catástrofe. Nós, responsáveis pelos cursos de Letras, não enxergamos a bomba-relógio que temos nas mãos. As estatísticas não mentem: a retumbante maioria dos estudantes de Letras vem de camadas sociais pobres ou mesmo miseráveis, filhos de pais analfabetos ou que têm escolarização inferior a quatro anos. Isso significa muita coisa. Significa que esses estudantes têm um histórico de letramento reduzido: no ambiente familiar, não convivem com a cultura letrada, não têm acesso a livros, revistas, enciclopédias. Não são falantes das normas urbanas de prestígio (as mesmas que supostamente terão de ensinar a seus futuros alunos) e têm domínio escasso da leitura e da escrita. Só na faculdade é que a maioria deles vai ler, pela primeira vez na vida, um romance inteiro ou um texto teórico.

Vêm, quase todos, do ensino público, essa tragédia ecológica brasileira pior que as queimadas na Amazônia. Nós, porém, fingimos que eles são ótimos leitores e redatores, e despejamos sobre eles, logo no primeiro semestre, teorias sofisticadas, que exigem alto poder de abstração e familiaridade com a reflexão filosófica, e textos de literatura clássica, escritos numa língua que para eles é quase estrangeira. E assim vamos nos iludindo e iludindo os estudantes.

O resultado é que os estudantes de Letras saem diplomados sem saber lingüística, sem saber teoria e crítica literária e sem saber escrever um texto acadêmico com pé e cabeça. Todos os dias, recebo mensagens de formandos que me pedem orientação para seus trabalhos finais. Alguns até me enviam seus projetos. São textos repletos de erros primários de ortografia, pontuação, sintaxe, vocabulário, com frases truncadas e sem sentido. Assim eles chegam ao final do curso, e suas monografias, mal escritas, sem nenhum rigor teórico ou metodológico, são aprovadas alegres e irresponsavelmente por seus supostos orientadores.

O problema, é claro, não está no fato (que merece comemoração) de acolhermos na universidade alunos vindos das camadas mais desfavorecidas da população. O problema é não oferecermos a eles condições de, primeiro, se familiarizar com o mundo acadêmico, que lhes é totalmente estranho, por meio de cursos intensivos (e exclusivos) de leitura e produção de textos, de muita leitura e muita produção de textos, para só depois desses (no mínimo) dois anos de preparação eles poderem começar a adentrar o terreno das teorias, das reflexões filosóficas, da alta literatura. Se não fizermos isso urgentemente (anteontem!), as salas de aula do ensino básico estarão ocupadas por professores que, mal sabendo ler e escrever adequadamente, não poderão desempenhar sua principal tarefa: ensinar a ler e a escrever adequadamente! Não sei, aliás, por que escrevi "estarão ocupadas": elas já estão ocupadas, neste momento, por essas pessoas, de quem se cobra tanto e a quem não se oferece uma formação docente que também seja, minimamente, decente.

 

Artigo publicado originalmente na revista Caros Amigos,

edição de novembro de 2008.

 

Site do Bagno: http://www.marcosbagno.com.br/



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 10h23
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TRÊS PERGUNTAS PARA

JORGE ELIAS NETO

MÉDICO E POETA CAPIXABA

 

 

GF – Jorge, o exercício da cardiologia, uma área tão delicada da medicina, foi que te trouxe esse arsenal existencialista impresso na sua poesia, ou isso é algo inerente ao seu ser?

Jorge Elias Neto - Quando pequeno, muito me chamou a atenção a estória de David Copperfield que desde a mais tenra idade teve que lidar com a idéia de morte e de perda. De alguma forma, ficou em mim incutida a impressão que eu deveria ser uma pessoa forte a lidar com a morte e que, em algum momento, me confrontaria com a “inesperada das gentes”. Percebi, com o tempo, que essa tarefa não me seria assim tão fácil...

Tornei-me médico, lidei com inúmeros casos graves, presenciei, ao longo dos últimos 25 anos, as diversas formas como o homem, à beira da morte, bem como os seus convivas, enfrentavam esse momento único e, para mim, definitivo (a verdade básica da vida).

E esse enfrentamento tornou-se uma questão de vida: trabalhar a idéia de morte e entender a multiplicidade de atitudes do homem frente a essa locomotiva que “sempre chega pontualmente na hora incerta”. Passei a entender a relevância desse entendimento na minha formação como homem. Li as reflexões nos Ensaios de Montaigne, n’O sofrimento do jovem Werther, de Goethe, Nietsche, Kant, Camus e fui fazendo meu percurso.

Hoje, tenho a tendência a crer que a morte é branca, que é o nosso retorno à irracionalidade e à nossa perfeita integração ao caos universal. Entendi que esse absurdo – a coexistência entre o homem e o universo –, só vale a pena se repisarmos cada segundo e que, para mim, já não é mais permitido o alento da religião. É difícil, eu sei, mas esse é o meu caminho.

Daí minha poesia ser carregada de questões metafísicas, existencialistas. Nela busco expressar minhas meias-verdades.

 

Ninguém deixou de sentir alguma vez que o destino é poderoso e estúpido, que é inocente e também inumano. Para essa convicção, que pode ser passageira ou contínua, mas que ninguém evita, podemos escrever nossos versos

                                     Jorge Luis Borges

 

GF- Em que medida você vê o poeta marcado pelos elementos do mito de Sísifo?

JEN - Por que viver? Em um poema onde retrato o suicida, eu narro um fato real. Um amigo “comum”, trabalhador, bem situado profissionalmente, do tipo “família”, após realizar sua grande obra profissional – suicidou-se. Retirei seu corpo do mar juntamente com dois amigos: um ascético extremo e um espírita. Naquele momento, olhei meu amigo morto e observei a reação de meus outros amigos. No meu caso, me pareceu clara a decisão dele: cansou-se da rotina de rolar a vida e, ao constatar o absurdo de viver, decidiu dar o salto para o nada.

Como disse Nietsche: “Cada um tem a verdade que é capaz de suportar”.

Quanto ao poeta?... Bem, o poeta, como todo ser humano, é marcado pelos elementos do mito de Sísifo.

O poeta é o protótipo do herói absurdo, tal qual Sísifo. A poesia se faz da vida do poeta, dos seus “guardados”. Respondo esta questão à partir do meu entendimento: optei pela vida e tento levá-la da forma mais intensa possível – tento insistentemente entendê-la.

Rolo as pedras, e coloco em minha poesia meu processo de aprendizado. Quanto a ser um médico ou um poeta, para ambos é necessário o fazer diário, mas com o prazer comedido do eterno aprendiz.

Acho que o poeta é um felizardo ao conseguir, nos momentos em que se encontra no limiar da melancolia, ter a possibilidade de externar seus pensamentos na forma de poema.

Desculpem-me os que vêem a poesia de uma forma mecanicista, mas creio na poesia que parte de uma emoção (com consciência e sem pieguices, é claro). CONTINUA...



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 09h53
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GF - Não te pedirei escolhas entre a poesia e a medicina. Mas, pegando uma carona em Rilke, eu te pergunto: serias capaz de viver sem uma ou outra atividade?

JEN - Não. Na minha adolescência iniciei uma pausa de 25 anos em relação ao fazer poético, período este totalmente dedicado a minha formação profissional, durante o qual tudo que escrevi foram textos médicos.

Certo dia, retomei a poesia e sinto que ela também passou a ser essencial no meu sentido de estar vivo. É óbvio que, apesar dos avanços na medicina cada vez aumentarem minha possibilidade de manter-me ativo profissionalmente, tornar-me-ei um profissional ultrapassado, mas isso é algo natural.

Quanto ao poeta, este ainda é muito jovem e pleno de incertezas e imperfeições. Espero que meus conhecimentos como médico, apesar das idiossincrasias cometidas, permitam-me uma terceira idade madura na poesia.

Penso que ambas, a poesia e a medicina, me permitirão um legado sem tragédia.

 

 

                    Sobre o mito de Sísifo

 

                    A labuta não respeita o portal das casas.

                    Dentro e fora – rolam-se pedras.

 

                    – Avisem-me

                    quem joga o bilboquê de pedra

                    dos dias.

 

                    E segue o homem-bastão

                    entre romper o barbante

                    ou deixar que lhe caia sobre a cabeça

                    o peso da tomada de consciência.

 

                    O homem é um ser interrompido.

 

                    Seja no curtume das horas

                    ou nas contas do terço,

                    ele sempre se agasalha

                    com a tênue esperança.

 

                    “roda peão,

                    bambeia peão...”

                    No absurdo de agora

                    e à espera da vida eterna,

                    Amém!

 

Blog do Jorge:

http://www.jeliasneto.blogspot.com/



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 09h51
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RETRANCA: UMA "FORMA FIXA"

BEM BRASILEIRA

 

São muito poucas as formas fixas utilizadas na poesia. Uma delas, a Retranca, foi criada por um poeta brasileiro, o pernambucano Alberto da Cunha Melo, e deve ser devidamente cultuada e tratada como um patrimônio das nossas letras, assim como fazem os italianos com o soneto e a terça rima.

A Retranca, como já mostramos em outros artigos, se caracteriza por conter quatro estrofes com a seguinte disposição: 4,2,3,2, com oito sílabas métricas por verso, onde o quarteto tem assonâncias no segundo e quarto versos; o primeiro dístico com assonâncias aparelhadas; o terceto com assonâncias no primeiro e terceiro versos da estrofe e um dístico final com rimas consonantais.

Conforme o ensaísta e crítico César leal, Alberto da Cunha Melo verificando que um time de futebol é formado por 11 jogadores, criou uma nova forma fixa, a única inventada até agora em nossa língua o que não deixa de ser uma façanha, uma vez que se trata de fato cultural mais importante do que sete vitórias numa copa mundial de futebol. E celebra a descoberta, afirmando que embora o esporte não deixe de ser atividade relevantes na cultura de um povo, não devemos compará-lo com a força da poesia.

Somente Alberto poderia confirmar tal intenção, mas a afirmativa de César Leal é pertinente e provável, uma vez que o próprio nome da “forma fixa” possui relação com o futebol.

Seria então a Retranca (e a poesia em si) uma via por onde o poeta se protege dos ataques desse mundo pós-moderno, pobre de reais valores? Preferimos acreditar que sim, e ficamos com as palavras do poeta e ficcionista Aleilton Fonseca quando diz que “a poesia é a legítima defesa e a condenação do poeta.(...) o exercício da poesia o torna um ser marcado, para quem os homens práticos olham com desconfiança e disfarçada comiseração”.

Neste 13 de Outubro fez um ano que Alberto da Cunha Melo despediu-se deste mundo, no período vários poetas tornaram-se cultores da Retranca, ao ponto de já podermos falar ser possível a publicação de uma antologia de poetas brasileiros que escrevem dentro desta forma fixa. Alberto da Cunha Melo nunca esteve tão vivo, meus amigos.

Agora, os leitores poderão conhecer alguns destes poetas e seus poemas.

 

Acessem o link:

http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3659



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 13h45
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TRÊS PERGUNTAS PARA

ZÉ RODRIX

COMPOSITOR, CANTOR,

PUBLICITÁRIO E ROMANCISTA

 

 

Gustavo Felicíssimo – Zé, em que momento você acredita que suas atividades como compositor, publicitário e romancista se amalgamam?

Zé Rodrix O tempo todo. Não vejo nenhuma diferença essencial entre nenhum processo de criação, porque a criação é um ambiente contínuo no qual eu me movo de modos diferentes, adequando minhas ferramentas criativas para o objetivo desejado. A meu ver, nenhuma atividade criativa pode ser considerada mais elevada ou menos importante que a outra, por mais que exista preconceito de quem as observa, na maior parte das vezes sem saber do que se trata. Estar em pleno exercício criativo é a minha regularidade diária, sem a qual eu não seria eu mesmo: criar como forma de sobrevivência do corpo, da mente e do espírito, evoluindo, crescendo e me modificando a cada instante, tornando-me finalmente o objeto que surge da minha própria criação, através daquilo que eu realizo. Meus romances, minhas canções e meus jingles são facetas diversas de minha própria capacidade criativa, assim como meus desenhos, pinturas, peças teatrais e até poemas, cada um ocupando o seu espaço específico no mundo real, mas todos partindo de uma mesma fonte original, eu mesmo.

 

GF – Há quem diga que a música popular foi quem tomou o espaço já diminuto da poesia. O que você acha dessa afirmação?

ZRO equívoco, a meu ver, é dos poetas, que de maneira geral têm tido inveja do aparente sucesso popular dos músicos, e se dispuseram a enfiar a sua poesia de maneira artificial na seara musical, prejudicando tanto a poesia quanto a música. Não creio que exista nenhuma semelhança entre poesia e letras de música, por exemplo: são objetos artísticos perfeitamente diversos e diferentes, apesar de partilharem algumas semelhanças no uso da língua e dos truques criativos. A partir de determinado momento, quando letristas passaram a ser chamados de poetas, (equivocadamente, a meu ver) os poetas se sentiram à vontade para se transformarem em roqueiros, usando a música popular como veículo para sua poesia que, de maneira geral, funciona muito mal quando cantada, mas seria excelente se permanecesse nos limites reais da poesia escrita.  Agora, vai ser preciso muita coragem da parte dos poetas para romper este vício da popularidade e retomarem seu processo poético original, de forma a recuperar o verdadeiro valor da poesia, pois, como disse Fernando Pessoa, “a popularidade é um plebeísmo”. Insuportável para a tão necessária verdade e permanência poética.

 

GF – Você acredita em um processo de alienação das massas provocado por uma possível e anunciada “ditadura midiática”? Essas questões chegam a te incomodar?

ZRDe forma geral, esta “ditadura midiática” é papo muito velho, herdado do Manifesto do CPC da UNE em 1962, que já era cópia quase fiel do Manifesto por Um Realismo Socialista, de Jdanov, escrito na URSS em 1947. Nela se estabelecem como inimigos todos os processos de abrangência comercial da arte tanto burguesa quanto popular, descartando tanto a “arte burguesa’ quando a “arte popular” com sendo veículos de alienação, e pregando a necessidade de uma “arte popular revolucionária”, que nunca existiu realmente, a não ser como as experiências artificialíssimas da MPB,  seguindo os passos de uma “brasilidade” estabelecida pela outra ditadura, a de Getúlio Vargas.

            A tentativa de estabelecer um “padrão popular” de música feita no Brasil, por exemplo,  já tinha sido intentada por Lourival Fontes, diretor do DIP durante o Estado Novo, e este padrão de “brasilidade”  é uma barreira que permanece ainda vigente como parâmetro dos artistas nacionais, porque foi assumido como sendo “real” pelo manifesto da UNE, que preferiu a ditadura de Vargas à Ditadura Militar, pretendendo que a primeira fosse melhor que a segunda, no que se equivocaram profundamente.

             O sistema de comunicação midiática mundial já pretendeu ser dono das vontades de todos, menos de quem o critica, ainda que quem o critique também esteja sob a égide de uma mídia específica e tão daninha quanto a que verbera. Acusar a mídia por todas as mazelas do mundo, menos as próprias, indica apenas um desconhecimento profundo das possibilidades humanas de livre-arbítrio, escolha, e capacidade de decisão. Tudo está, a meu ver, nos limites da consciência e responsabilidade pessoais,  e para entender isto seria preciso estudar com atenção o momento em que Sartre, tendo durante algum tempo proposto como ideal a figura do “artista engajado”, a substituiu pela do “artista consciente”, já no fim de sua vida.

             A Arte não está sob o controle de nenhuma mídia, se verdadeiramente for Arte, e nem os usuários desta mídia se tornam escravos dela, principalmente agora que a revolução tecnológica permite a livre expressão das individualidades através da escolha pessoal. Há inúmeros artistas que, filiando-se a esta ou aquela escola, se consideram mais artistas que outros de outras escolas, ao mesmo tempo em que partilham de práticas e usos que condenam em seus desafetos, aplaudindo-os em si mesmos como “exemplo de pragmatismo ideológico”. Dois pesos, duas medidas, infelizmente valorizados e divulgados como sendo ideais pelos que chamo de Perpetuadores dos Dogmas e Defensores dos Mitos, estes que, sendo parte da mídia, se especializaram em expor seu gosto pessoal ou filiação ideológica como sendo a Única Verdade, tornando-se divulgadores de seu próprio e equivocado Evangelho, tentando convencer a quem os ouve de que a Arte de que gostam nos foi doada diretamente por Deus e que todas as outras são imitações diabólicas desta.

             Os seres humanos, atualmente, e a cada dia mais, têm infinitas formas de fazerem suas próprias escolhas, através das liberdades individuais, deixando-se envolver por aquilo que os agrada e rejeitando aquilo que os desagrada, por mais que as teorias vigentes ainda  insistam em nos impor o gosto por aquilo de que não gostamos, como necessidade de sobrevivência da “kultura”. Neste sentido, as classes populares são muito mais livres, porque em seu território possível, selecionam e elegem como sendo SUAS as formas de Arte que lhes tocam mais de perto, em vez de seguirem, obedientemente, os parâmetros que algum evangelista lhes imponha como sendo os únicos possíveis, da maneira como a classe média tem feito.

 

Sobre o entrevistado: http://pt.wikipedia.org/wiki/Z%C3%A9_Rodrix



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 10h54
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TRÊS PERGUNTAS PARA

NICOLAS BEHR

POETA

 

 

GF – Como é que, para você, a cidade de Brasília emerge na sua poesia?

NB – Minha poesia não é refém de Brasília. Cheguei aqui aos 14 anos de idade, vindo de Cuiabá, uma cidade-não-planejada. Brasília foi um choque: decifra-me ou te devoro. Sair do mato pra cair na maquete. Minha relação com Brasília é difícil, como é difícil toda relação amorosa. Digamos que é um amor irascível. Hoje sinto-me parte da cidade, um pedaço de mim vaga por estas superquadras. Vou morrer aqui. Daqui não saio. Me sinto às vezes cobaia de um projeto modernista e digo: não é fácil morar num símbolo. Mas sobreviverei, com certeza. E quem sobreviver a Brasília sobreviverá a qualquer estação  extraterrestre que o ser humano queira construir em qualquer planeta.

 

GF – O que é que havia de favorável no final dos anos 70 para que seus “livrinhos” vendessem tanto?

NB – Meus “livrinhos” vendiam muito porque eram baratos. Hoje custariam talvez uns 3 reais. E eu tinha boas técnicas de venda, era um cara de pau danado e ia sempre em lugares muito receptivos a esse tipo de poesia-atitude: portas de shows, de peças de teatro, de escolas, em alguns bares. Mas já vendi dentro de ônibus. Não tinha medo do ridículo, não tinha medo de cara feia. Não me lembro de ninguém ter me tratado mal. Afinal, era jovem, imberbe, vamos dar uma chance ao moço! O ambiente político ajudava: havia censura, havia ditadura, havia opressão. E a arte responde bem à opressão! Havia muros a derrubar, preconceitos a vencer. E havia uma vida a viver. O poeta mostra sua cara. Isso é típico da chamada “geração mimeógrafo”, emparedada entre a frieza do concretismo e a ideologização da chamada poesia engajada. Era sim uma poesia de resistência, sem vínculos partidários. Flertando com o anarquismo, levemente punk. Hedonista.  Bons tempos!

 

GF – Sua atuação como poeta nesta época lhe rendeu uma prisão. Sob qual acusação você foi preso pelo DOPS e como se deu essa prisão?

NB – Existem duas versões: uma diz que os policiais do DOPS estavam à procura de um mimeógrafo que produzia os panfletos distribuídos pelo movimento estudantil. Como todos os meus livrinhos eram mimeografados, os “homi” deduziram: o poeta imprime seus livrinhos e produz os panfletos dos estudantes. Tanto que quando chegaram lá em casa no dia 15 de agosto de 1978 perguntaram logo pelo mimeógrafo. Outra versão, que eu aceito mais, é que fui denunciado por um professor de Educação Moral e Cívica, pois vendia muitos livrinhos em portas de colégio. Tanto que fui processado por “porte de material pornográfico”, sendo julgado e absolvido em março de 79. Aí voltei a publicar meus livrinhos mimeografados novamente, até 80, quando, de saco cheio de vender livrinhos, procurei emprego em agências de publicidade e consegui. Fiquei 6 anos nessa...



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 23h52
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TRÊS PERGUNTAS PARA:

MIGUEL CARNEIRO

 POETA E CONTISTA

 

 

Gustavo FelicíssimoVocê é chegado aos embates e por isso possui alguns desafetos no meio literário...

MC – O poeta paulista José Paulo Paes, em seu poema “Poética”, traduz a minha peleja nessa seara de homens sem ética, pois só sei viver sem estar atado a peias. Ele diz: “Não sei palavras dúbias. Meu sermão/ chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão. / Com duas mãos fraternas, cumplicio / A ilha prometida à proa do navio. / A posse é-me aventura sem sentido. / Só compreendo o pão se dividido. / Não brinco de juiz, não me disfarço em réu. / Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.”
Sempre se soube que no meio literário baiano viceja a “mauvaise herbe”, que não inova nada, não contribuiu com algo novo, é o mesmo ramerrão de versos plagiados. Ser poeta todo mundo quer ser, mas poucos são. E contista é uma coisa meio difícil, você não pode enganar. Ou é ou não é. Na poesia, com a semana de 22, todo mundo virou poeta e a merda se alastrou. É tanta porcaria que se publica que eu tenho é vergonha. Eno Teodoro Wanke, poeta paranaense, disse certa feita que “é fácil distinguir entre o verdadeiro e o falso poema. O falso permanece escrito ou impresso na página. O verdadeiro salta, palpitante de vida e de alma, e fica para sempre inscrito em nós, morando na gente, lembrado na memória, sentido no coração.”

GF - Em que campo da literatura você se sente mais confortável?
MC – Literatura é o pão que o “dianho” um dia amassou com o pé. Nada em literatura é prazeroso quando se leva ela a sério. João Cabral, cego no fim da vida, num apartamento no Rio, entre tiroteios e balas perdidas, com uma nevralgia crônica, cunhou essa pérola, na década de 70, numa entrevista ao Suplemento Literário do Diário de Noticias: “quando não posso me renovar, eu me calo”.

GF Então, qual a função que a literatura exerce na sua vida?
MC- Só me sinto humano porque escrevo. Isso é uma constatação minha, não um julgamento. Só encontro a minha missão como parte do rebanho de Jesus Cristo quando o povo emerge em minha obra e sai do limbo para ganhar voz. Literatura é o que me faz viver. Não a faço por deleite ou almejar fama. Faço como compromisso social e vislumbrando um mundo mais fraterno, mais justo, mais farto, mais irmão. Sou um homem angustiado, pois meu irmão do lado ainda passa fome, num país continental, farto e cheio de riquezas naturais. Sinto-me constrangido quando minha obra não toca o coração do meu irmão, seja ele brasileiro, francês, alemão ou americano. Em todos esses idiomas tenho trabalhos publicados e traduzidos.

 

Esse trecho faz parte de entrevista publicada originalmente no Jornal literário "abxz - Caminho das Letras"



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 16h49
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TRÊS PERGUNTAS PARA:

SILVÉRIO DUQUE

POETA E MÚSICO

 

 

Gustavo Felicíssimo – É um estranho poder, o da poesia, capaz de opor-se à miséria humana, aos ditadores, e ao mesmo tempo tão impotente atualmente frente aos olhos da humanidade. Por que você acha que isso ocorre?

Silvério Duque – Meu caro Gustavo, a Poesia, como quaisquer formas de arte, é, sem sombra de dúvidas, a primeira maneira, e, até hoje, a melhor, que o homem encontrou para se conhecer, expressar suas emoções e perpetuar seus princípios, seus valores, suas leis e sua cultura.

A arte é tão velha quanto o homem e sua civilização e durante muito tempo o homem não teve a pretensão de se ver distinto da natureza e buscava, sobretudo, uma integração com todo o universo. O homem sempre teve a necessidade de transcendência, e de buscar um elo entre a aparente efemeridade da vida, das coisas e a Eternidade, e, nisso, sofisticou, ao longo das eras, as suas mais diversas formas de expressão, procurando representar sua percepção cada vez mais acurada do meio em que vivia. Em resumo, não há síntese mais perfeita entre a razão, a emoção, a vida prática e, acrescente-se a isso (doa em quem doer), a Presença Divina.

E ela se faz perfeita por acabar-se em si mesma, porque, nela, se encerra todo um universo, uma maneira de compreender quando aceitamos que todas as coisas nos são possíveis, não podemos mudar ou acrescentar nada a um poema ou a uma obra de arte, apenas, a partir deles, deliberar; a Poesia é, em seu discurso, a probabilidade; ela capta tanto o real como imaginário àquilo que ela tem como presumível; o que não acontece com a filosofia, por exemplo: filosofar é um eterno reiterar-se (embora, os marxistas, em sua prática, discordem); é estar sempre aberto a uma nova frase, ou conceito,... ou coisa do tipo, que pode fazer com que aquele pensamento, antes direcionado para um lado, tome rumos completamente diferentes; a Filosofia, como a Ciência, de maneira geral, é um eterno acrescentar-se... e queira Deus que seja sempre assim. 

Já um poema, pode, sim, ser modificado ou acrescentado de muitos outros elementos por seu autor, mas, logo que publicado, tudo o que podemos fazer, sendo o poema, também, um assunto científico, é tirar dele o que ele nos tem a oferecer – sendo um bom poema, serão muitas e muitas coisas – porém, não podemos acrescentar-lhe um verso ou um pensamento sem destruí-lo ou transformá-lo em outra coisa, pois ele não é um sistema de pensamento, é a apreensão imediata e peculiar que seu autor fez de um momento de sua vida transmitindo-a a nós numa forma também própria de linguagem, no caso, artística; o que não quer dizer que o poeta não possa, mais tarde, deliberar sobre o que fez, mas não é a sua função primaz. Segundo o filósofo Olavo de Carvalho, em seu Aristóteles em nova perspectiva: introdução à teoria dos quatro discursos, este papel cabe, por exemplo, ao filósofo, que construirá, a partir do discurso poético, um pensamento filtrado naquilo que fora apreendido pelo poeta e, segundo o professor Olavo, “é sobre estas imagens retidas e organizadas na fantasia, e não diretamente sobre os dados dos sentidos, que a inteligência exerce a triagem e reorganização com base nas quais criará os esquemas eidéticos, ou conceitos abstratos das espécies, com os quais poderá, enfim, construir juízos e raciocínios”. Não podemos (não deveríamos) dizer: este verso ficaria melhor aqui, ou, o poema deveria ser menor, mais enxuto, menos prolixo... Podemos retirar do poema quantos conceitos queiramos arrancar, quantas análises acharmos por bem tirar-lhe, mas, no fim, ele será sempre o mesmo poema e não será nem mais nem menos por isso, porque ele é, acima de tudo, a síntese e o registro de uma época, de um modo de vida, de um momento no tempo, de uma maneira única e particular de ver as coisas, de uma maneira peculiar de expressar o que se pensava e o que se sentia naqueles exatos instantes onde cada palavra ganhava um sentido, uma função e um dever; dever que, muitas vezes, é, puro e simplesmente, o nosso sentir-se bem; é ter algo de onde arrancar ou compartilhar as nossas mais simples ou as nossas mais profundas emoções. 

Nas pinturas rupestres de Chauvet-Pont-d'Arc, e seus tão realísticos “cavalos”, ou na vestuária “teimosa” de Bentinho, em Dom Casmurro, de nosso inigualável Machado de Assis, a Arte, bem diferente da História, é um rigistro vivo daquelas coisas que citei há pouco: as épocas, os modos de vida, os momentos no tempo, aquela maneira única e particular de ver as coisas, a forma peculiar de expressar o que se pensava e o que se sentia naqueles exatos instantes onde cada palavra ganhava um sentido, uma função e um dever; tudo está em movimento, porque a Arte não é um produto da escavação ou da especulação do historiador, e as coisas nela contidas estão vivas porque são partes da vida de seu autor, elas são seu legado eterno; e as épocas, os modos de vida, os momentos no tempo, aquela maneira única e particular de ver as coisas... eternizar-se-ão com ele através de seu trabalho e nada de mais importante podemos tirar disso tudo que não seja nos admirar, nos alegrar e louvarmos a Deus com estes milagres pelo homem produzidos.

A Poesia, em meu ver, como quaisquer formas de arte, é tão integrada à humanidade que chega a ser uma necessidade fisiológica como comer, dormir ou sentir dor quando algo nos fere; seja criando-a ou consumindo-a. Em cavernas ou em grandes templos egípcios, como os de Abu Simbel, nos cabarés da Belle Époque ou nas salas de cinema, nas camisetas que usamos ou naquela deselegante caneca de chopp na estante da casa de algum beberrão, há pouco ou muitíssimo da presença da Arte em nossas vidas; o que muda, evidentemente, é a hierarquia lingüística, os diferentes níveis de se apresentar, de se dizer, de apreender o mundo, os modos usados... 

E, por tudo isso e mais um pouco, a Arte se sobrepõe às épocas, às misérias, aos governos e a tudo isso que citaste, meu caro Gustavo, por não ser ela mesma um fato isolado da mente ou da história humana, mas porque ela integra a própria raça humana, preservando-a naquilo que ela tem de mais importante, como, por exemplo, seu Mito Fundador – um conceito de Schelling. Fazendo minhas, novamente, as palavras do filósofo Olavo de Carvalho (as quais podem ser conferidas no artigo: Do mito à ideologia, no Jornal da manhã do dia 21 de março de 2001, ou em seu site), um autêntico Mito Fundador “é uma verdade inicial compactada que, no decorrer da História, vai desdobrando o seu sentido e florescendo sob a forma de ciência, de leis, de valores, de civilização, não sendo ele mesmo um produto da cultura por ser ele mesmo a semente de uma cultura possível”. Basicamente, prossegue o filósofo, “um Mito fundador constitui-se, em geral, de uma narrativa simbólica de fatos que efetivamente os sucederam que de tão essenciais e significativos que acabam por transferir parte de seu padrão de significado para tudo o que venha a acontecer em seguida numa determinada área civilizacional”. A Bíblia é o Mito Fundador da civilização ocidental. E de que maneira este Mito Fundador se nos apresenta, e nos é repassado ao longo da História? Através da Literatura, primordialmente... Oral, depois escrita, xilogravada, depois pintada, melodiada por Bach etc. e tal... A arte é uma das muitas punções de um Mito Fundador. Quando Northrop Frye afirma ser, a Literatura Ocidental, uma variação dos enredos bíblicos, coisa que eu não tenho porque não acreditar, pelo contrário, reitero aqui tal afirmação, ele não só demonstra a existência e a importância do Mito Fundador como nos dá um belo exemplo do poder que a Poesia e a Arte exercem sobre nós ao longo de milênios.

Assim sendo, não é a Poesia, ou a Arte, que está impotente diante da humanidade... é a humanidade que teima trocar seus mitos fundadores por ideologias fúteis, que em nada acrescentam e em tudo destroem. No entanto, a tendência de tudo é o melhoramento; tudo passa sobre a terra; viver, mudar, morrer é o nosso destino e a nossa dádiva. A Poesia sempre existirá como sempre existiu, com pouco ou muitos adeptos, com seus gênios ou poetas menores, e, como sempre, sairá vencedora com o passar dos anos, porque se não tivermos conceitos como bem e mal, bom ou ruim, se não tivermos uma idéia de sociedade e leis que façam prevalecer esta mesma sociedade, e formas de exprimir todas estas coisa – como só a Poesia exprime – nada mais nos restará ao não ser disputarmos, aos macacos, a floresta... ou coisa parecida. A Poesia, meu caríssimo, como a Arte, de uma maneira geral, está no centro mesmo destas coisas, como aquilo que nos une e nos conduz ao Divino, ao racional, ao emotivo, ao prático; e eu quero – e preciso – acreditar em tudo isso para que tudo que conheço não perca seu sentido e eu mesmo não me perca com todas essas coisas.   CONTINUA...



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 15h31
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GF – Que você acha da afirmativa do poeta Alberto da Cunha Melo quando diz que "o mau uso do verso livre terminou por colocar em risco a própria identidade social da poesia."?

SD – Para mim, meu caro amigo, ele está correto. Analisemos, contudo, esta consideração, do tão saudoso bardo pernambucano, por um viés filosófico...

Quando, Alberto da Cunha Melo, afirma ser o mau uso do verso livre uma ameaça à identidade social da Poesia, penso que, necessariamente, ele não se refere a uma questão puramente formal, ou seja, não é o fato de o verso ser livre, no sentido de não estabelecer-se dentro de uma métrica rigorosa, mas, no quanto que este verso está, erroneamente, “livre” (desvinculado) de uma série de elementos, alguns dos quais, devo ter citado anteriormente, que constituem a sua legitimidade enquanto texto poético; principalmente, trazer em si o Mito Fundador, e, conseqüentemente – (já estou com saudades do trema) – de sua importância às gerações que se valerão dele.

Neste sentido, caímos numa velha discussão com relação ao Modernismo de 22. O grande mal do Modernismo paulista, e, até hoje, uma grande desgraça para quem se alimentou dele, foi o fato de os paulistanos se afastarem completamente de um passado que só lhes podia fazer bem. Se olharmos, só por motivo de exemplo, para os primeiros modernistas de Portugal, veremos que eles não aboliram, de todo, as formas fixas, mesmo o soneto – e nem poderiam, pois, de tão enraizados estavam as língua e as tradições portuguesas nos decassílabos camonianos que eu posso afirmar, sem medo de cometer um despautério, que é o decassílabo a própria expressão do pensamento e da língua; nem, muito menos, aboliriam os grandes temas que percorrem a mentalidade humana há séculos e séculos; é por isso, e que nos sirva de exemplo, que as Odes de Álvaro de Campos são tão repletas de fábricas, engrenagens e automóveis velozes, quanto de uma retórica ou de um ritmo poético tradicionalíssimos, que estes mesmos elementos “modernos” tão contemporâneos não se fazem livres de um Virgílio ou de um Platão, tanto que estes chegam até a dividir os versos com aqueles; o próprio Fernando Pessoa era tão embriagado de Aristóteles quanto de Walt Whitman... Modernos sim, idiotas nunca; os portugueses sabiam que negar estas coisas é negar-se a si e a tudo que se podia definir como cultura; o menos que isso é caos puro e simples; assim, em Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), encontramos:

 

...em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força – 
canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, 
porque o presente é todo o passado e todo o futuro
e há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes elétricas 
só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
e pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinqüenta,
átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo

                                                                      do século cem,
andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por

                                                                                   estes volantes, 
rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só

                                                                           carícia à alma...

 

Agora, se olharmos para o exemplo do Brasil, ou pelo menos o exemplo paulista que, infelizmente, impera sobre os demais, a coisa é contrária: despreza-se o passado, a tradição, a forma e mesmo a linguagem apurada, que não tinha nada de preciosismo, em troca de quê? Em troca de algo que não se sustenta por si mesmo por não ter onde agarrar-se. A velha tentativa de buscar uma identidade nacional desprezando mais da metade dos elementos que constituem esta identidade só poderia dar em nada, ou pior, numa anomalia.

Tudo isso, no entanto, se se considerarmos os paulista de 1922, como precursores de nosso movimento modernista, o que eu não consideraria nem sobre tortura. E por quê? Porque há uma geração moderna bem antes deles que, por preguiça, incompetência de nossos críticos, ou espírito de cooperativismo porco, ou (o mais certo) os três juntos, não se enquadra como modernista, apenas como Pré-alguma-coisa... Agora, caro Gustavo, aponte-me uma característica dita como moderna ou como oriunda dos modernistas de São Paulo, que não tenha sido usada por um Augusto dos Anjos, ou um Lima Barreto ou um Euclides da Cunha? Diga-me, onde um Mário de Andrade foi melhor em retratar a urbis caótica que um Lima Barreto, ou se, por acaso, um Oswald de Andrade seria capaz de trazer tanta valorização ao passado, e às tradições culturais do Brasil, mais do que foram trazidas à luz no antológico Triste fim de Policarpo Quaresma? O que é o manifesto Antropofágico frente àquele horror que nos traga, nos devora e, ao mesmo tempo, nos apaixona e nos faz admirados nos sonetos de Augusto dos Anjos – poemas como Os doentes e As cismas do destino, presentes em Eu, são mais repletos de urbanismo e de uma linguagem inovadora do que quaisquer textos de Mário de Andrade... Sobre Augusto dos Anjos, Ferreira Gullar, entre muitos, aponta-nos o caráter inovador – modernista – da poesia do bardo paraibano: é quando ela rompe com as muitas conveniências verbais e sociais da época, levando, o Augusto dos Anjos, a uma mescla perfeita entre a beleza e o asco, entre os momentos sublimes e toda a sujeira da vida, sem contar certo prosaísmo, que triunfa sobre a rígida linguagem de seus sonetos. Diga-me, meu caro Felicíssimo, isto é ser ou não ser modernista? O que é o Manifesto Antropofágico diante de um Eu? Antropófagos que eu saiba foram o Raul Bopp, a Tarsila e os índios que devoraram o Frei Sardinha. Certo foi o Manuel Bandeira, que não entrou de todo nessa história...

Isso sem falar nos marginalizados como Graça Aranha e Monteiro Lobato; o primeiro soube enxergar, antes de muitos, os enganos e os horrores do Fascismo e do Comunismo bem antes de suas ascensões, é só ler o Canaã; o segundo caiu no ostracismo, vitimado pelo “cooperativismo de suínos”, algo que os paulistas de 22 aventaram como ninguém, por falar a verdade mais óbvia: que aqueles trabalhos de Anita Malfatti, tão aclamados pelos seus patéticos colegas, eram, e são até hoje, uma coisa ordinária. Não obstante, Monteiro nunca disse que ela era má pintora ou que, pelo menos, não era talentosa. Seríamos capazes de enumerar, caro Gustavo, as contribuições que os Contos gauchescos de Simão Lopes Neto deram a Guimarães Rosa e ao seu Grande sertão: Veredas? Para quem buscava a liberdade e o fim das segregações, ninguém mais negou-nos a primeira, nem nos pregou mais a segunda, meu amigo, do que os Modernistas paulistanos; não é à toa que, referindo-se ao Modernismo de 22, Luís Augusto Ficher não se acanha em dizer que “o Modernismo brasileiro, quer dizer, paulista, aquele que a gente aprendeu no colégio e hoje virou cânone obrigatório, inescapável, a ponto de excluir (da escola, dos manuais de história da literatura, portanto do horizonte prático da vida cultural) autores que não rezem por aquele catecismo – para os gaúchos é fácil ver isso, por exemplo, com o desprezo por Simões Lopes Neto, reduzido a ‘regionalista’ e, pior ainda, ‘pré-modernista’. Sem valor, portanto”.

....................................................

 

Em outros termos, mas reforçando tudo que disse e deliberei acima, eu penso que não existem versos livres; todo verso que se quer e se faz bom é um verso formal; toda poesia que se cobre de uma linguagem, de um ritmo e de temas que lhe são próprios, e que estão em comum acordo com a tradição, a cultura e, claro, com o gosto, a razão, a emoção de seu autor, é formal.

Se pegarmos um verso antológico de nossa Literatura como:

 

Assim calmo, assim triste, assim magro...

 

Muitos poderiam dizer, o verso da Cecília Meirelles não é um verso de dez sílabas poéticas perfeito, ou abre-se o verso em ...calmo assim... para se obrigar ao decassílabo. Porém o que se verá e se sentirá, ao ler este verso, mesmo fora de seu contexto, onde ele reina absoluto, como reinará qualquer outro verso do poema, é um verso extremamente musical e que se abrirá a uma infinidade de análises ou a outra infinidade de sensações.

A formalidade de um verso reside muito menos nas sílabas que se contam do que nos significados que carrega. Com o próprio Alberto da Cunha Melo não é diferente; sua contribuição à poesia brasileira é bem maior pela tradição que florescem em seus versos do que na forma que criou: a retranca. Isso, claro, sem tirar-lhe o mérito de uma, nem diminuí-lo pela outra. Alberto da Cunha Melo sabia que, se tirarmos os valores metafísicos da poesia, para nada servirá um verso senão para o seu próprio enterro, “uma linguagem de catacumbas”, como ele próprio dissera. Há uma grande diferença entre um soneto, por exemplo, e um poema que se arruma em 14 versos. No primeiro, séculos de tradição oral e lingüística, aliados a um formalismo elegante, fundem-se à emoção genuína, à linguagem própria e ao talento de seu autor; no segundo, apenas aglomeram-se versos que flutuam à deriva procurando algo que lhes dê significado; por isso, se abusarmos desta falsa liberdade do verso não comprometeremos não só a identidade social da poesia como seu próprio valor metafísico. O Exórdio de Yakala fala-nos bem mais e melhor disso do que eu:

 

Levamos fogo, não esponjas
ao trono sujo do excremento,
disputando o mesmo vazio
de uma estrela no firmamento;

jarros negros e estrelas, tudo
é uma busca de conteúdo;

ou somos renúncia ou cobiça,
atravessando esses planaltos
feitos de cinza movediça;

mas todos estamos em casa,
como os vôos dentro das asas.

 

                                        CONTINUA...



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 15h27
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GF – Aos seus olhos, que é professor, qual a importância se levar a poesia para os jovens na sala de aula?

SD – Antes de qualquer coisa é importante estender esta meta não só com relação à poesia, mas quaisquer tipos de arte, contanto que, primeiramente, se observe o caráter e a qualidade do que se está transmitindo os nossos alunos como sendo arte.

Um dos grandes problemas de nossa atual sociedade é que ela desaprendeu o sentido tanto teórico quanto prático da palavra “critério”, ou mesmo “juízo” e “discernimento”. Não quero, nem me cabe (aqui) levar esta questão a outras áreas, no entanto, em termos de arte, o que vemos é um público incapaz de diferenciar bossa nova de um pagode de mesa, ou que vai a um show de arrocha como vai a um show do João Bosco sem se quer saber ao certo o que ouviu e, mesmo assim, arisca-se a arrotar intelectualidade ao sair de qualquer um dos dois sem o menor recato ou razão, a começar por nossa classe média “letrada”. Por vários motivos, que seria impossível enumerá-los em tão pouco espaço, termos como “bom gosto”, “intelectual”, ou “mesmo erudito”, têm sofrido uma inversão enorme ou um total descrédito, principalmente por parte de quem deveria prezar por eles. 

Por isso, quando tu me perguntas se seria importante levar a poesia às escolas, a resposta imediata é sim e por quê? Porque poesia é arte e por isso mesmo é uma manifestação da raça humana plena de transcendência; porque é a mais completa manifestação do espírito e da inteligência humanos recortados pela racionalidade dos códigos possíveis: a música, a pintura, a escultura, o teatro, a dança e, claro, a poesia...  E em todos reconhecemos o potencial, inato ao homem, de expressar emoção, beleza e razão. Algumas pessoas dominam ativamente estes códigos e conseguem conceber, criar a obra de arte; são os artistas: poetas, músicos, pintores, teatrólogos... Não é levando arte às escolas que, necessariamente, criaremos tais pessoas, mas não deixa de ser um incentivo e tanto; contudo, existem outras pessoas que, apesar de não serem criadoras, integram-se com a arte por meio de sua apreciação, descobrindo novas formas e sentidos; são os estudantes, os críticos e, sobretudo, os admiradores da arte. Formar estas pessoas é uma obrigação para nós que educamos... Daí, porém, mais imediatamente ainda, vem-me uma angústia: mas que poesia, ou arte, seria levada? Com que tipo de literatura os milhões de alunos deste país teriam contacto? Será que, ao saírem da escola, mesmo não se tornando escritores – ou, se quer, grandes intelectuais – estes alunos seriam capazes, como cidadãos dotados do mínimo possível de educação, de distinguir um texto de Pe. Antônio Vieira de uma das piadas bem arrumadinhas do Luis Fernando Veríssimo e, melhor ainda, dar a eles o devido valor que cada um têm em suas estruturas e contextos? Teoricamente, qualquer escola de zona rural estaria apta a dar a seus alunos algo aparentemente tão simples e lógico, todavia, o que temos em nossa realidade...?   

Quando, por exemplo, um aluno tem acesso a uma educação musical esmerada, mesmo que ele não se torne um Stravinsky ele não aceitará um tipo de música que não esteja em um nível equivalente àquele ao qual está acostumado, pois, como conhecedor das estruturas musicais e, tendo em si, um gosto desenvolvido em cima de composições sofisticadas, a sua tendência é rejeitar o frívolo, o simplista e o de “mau gosto”; assim, quando não formamos grandes músicos, que é algo que depende, como na poesia, na pintura, etc., muito mais do toque da Musa, certamente, formaremos grandes ouvintes cada vez mais cuidadosos e exigentes com aquilo que lhes é passado como musica.  Com a poesia não seria diferente. Eu mesmo, ainda no primário, tive professores “à moda antiga” que me “forçavam” – e também aos meus colegas – a ler em pé, e em voz alta, poemas e contos de vários escritores brasileiros e portugueses; qual foi o resultado de tudo isso...? Para mim, conheci o Camões aos 10 anos e tenho poemas de Manuel Bandeira decorados desde o primário; em relação aos meus colegas, mesmo os que não seguiram uma carreira universitária, nunca ouvi deles expressões do tipo: “para mim comprar” ou “para mim ver”, nem dificuldades em interpretações básicas de textos ou reportagens, como se é possível ver nos alunos de hoje, educados no melhor programa de recrutamento à Paulo Freire. Eu tento aplicar métodos semelhantes e, “de vez em quando”, alguns “Guardiões” da pedagogia, imediatamente, me acusam de antiquado, agressivo e aplicador de métodos de adestramento.

Muitos, após lerem o que digo nesta entrevista, chamar-me-ão “fascista” – xingamento muito em moda nas rodas dos ideológicos de esquerda e coisa parecida –, e dirão até que eu desprezo a cultura popular e outras bobagens do tipo – porque não há nada pior no mundo que dá razão a idiotas e sínicos –; mas não é o caso aqui; o que eu quero é por as coisas em lugar preciso e lhes dar os devidos valores. Eu penso que, se passarmos aos nossos alunos os mais novos hits do Funk, ao invés do melhor que nos pode oferecer a Música Erudita, ou mesmo o Jazz, a Bossa Nova e o Chorinho; Haroldo de Campos, ao invés de Camões, ou João Cabral de Melo Neto e Patrice de Moraes; se levarmos os nossos alunos para ver e apreciar grafiteiros ao invés de Da Vinci, Caravaggio ou mesmo Di Cavalcante, Carybé e Gabriel Ferreira; se, principalmente, os ensinarmos que não há diferenças, nem hierarquias, entre estas coisas e as outras, como querem e praticam muitos, com auxílio tanto dos cofres públicos como de uma intelectualidade tão bem intencionada quanto pode haver no Inferno, destruiríamos, como já estão a destruir, todos os grandes valores que vêem formando a sociedade humana há milênios; perderíamos a própria noção de contraste que é a forma mesma pela qual o nosso pensamento e o nosso raciocínio trabalham ou a nossa perplexidade que é a forma mesma pela qual o nosso pensamento e o nosso raciocínio se formam e pararíamos estuporados diante de um mundo onde a menor e mais insignificante expressão possível andaria de mãos dadas com a mais genuína e grandíloqua linguagem. Este mundo nefasto é mais real do que imaginamos e está se formando e se expandindo tanto nas escolas, quanto nas ruas e até mesmo em nossas casas... Tudo porque alguém começou a acreditar em algum idiota que disse que noções de bom e mal são noções criadas para a segregação de classes, ou coisa do tipo...

Levemos poesia sim, mas boa poesia acima de tudo; e boa poesia só pode nos ser dada por aqueles que têm um compromisso com os grandes temas da humanidade, que expressam estes temas com a mais sofisticada linguagem possível e não abrem mão das influências daqueles que, como eles, se apegaram aos grandes valores construtores deste nosso mundo há séculos para não sermos vítimas daquilo que Bruno Tolentino, em sua última aula (conferir: Dicta&Contardicta, nº 1, IFE, junho de 2008),  referindo-se a um livro de Roland Barthes, chamou de Le degré zéro de l’imposture e depois, levando em conta a proximidade sonora, de Le degré zéro de épluchure:

 

...como se o macaco pegasse a banana e jogasse a fruta fora porque acabou de descobrir a casca. Um país inteiro que já deu Baudelaire, Racine, Villon e até Voltaire com aquele beicinho, uma das grandes culturas do mundo, de repente descobre a casca de banana e lança-se inteiro naquele estado de adoração do nada.     

 

Desta maneira, para que não nos aconteça mesmíssima coisa, até porque, yes! We have bananas...  é preciso prezar o quanto antes pela boa qualidade de tudo que é ensinado aos nossos alunos, principalmente, acredito eu, no que concerne à poesia, por todas as razões por mim apontadas ao longo desta entrevista – principalmente a de que, pela poesia, a inteligência exerce a triagem e reorganização do que foi apreendido criando os esquemas eidéticos, ou conceitos abstratos das espécies, com os quais poderá enfim construir os juízos e raciocínios e coisa e tal... Mas tudo passa sobre a terra... 

 

Feira de Santana, 17 e 18 de novembro de 2008



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 15h26
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TRÊS PERGUNTAS PARA:

RUY ESPINHEIRA FILHO

POETA, ENSAÍSTA E ROMANCISTA

 

 

Gustavo Felicíssimo – Para você, Ruy, alguma arte poderá ser considerada como tal se não for capaz de fazer exalar o perfume da poesia?

Ruy Espinheira Filho – Não. A meu ver, sem poesia não há arte. Os grandes poemas épicos, por exemplo, têm muito de poesia, lirismo, do contrário seriam histórias contadas em versos secos – e verso por si só não é poesia. Lembremo-nos de Aristóteles fazendo a diferença entre Homero e Empédocles: ambos escreviam em versos, mas um era poeta – e o outro filósofo. Enfim, em toda arte merecedora deste nome há poesia – seja o artista poeta, romancista, pintor, músico, cineasta, dançarino, o que for. Não havendo poesia, arte não é.

 

GF - Você acredita que é também pelos seus valores que o poeta se torna a própria medida da sua obra?

REF – O poeta escreve com o que ele é. Ele não pode escrever a obra de outro, nem de forma diversa de sua própria essência. Como a criação é epifânica, muitas vezes o poeta chega ao máximo de si mesmo, o que o leva até mesmo a desconhecer sua própria obra. Mas foi ele mesmo quem a escreveu, em dado momento. Assim, a obra é o poeta – e vice-versa. Da mesma forma que o poeta constrói sua obra, ela também o constrói.

 

GF - O atual momento da literatura brasileira, e da baiana, em especial, onde vicejam epigramistas e poetas de pires na mão, sempre em busca da maledicência ou da fortuna crítica gratuita, confirma aquele velho provérbio espanhol que diz: “honra e proveito não cabem no mesmo saco”?

REF – Na verdade, sempre foi assim na chamada República das Letras – como, aliás, no mundo em geral. Não concordo com o provérbio espanhol (ou com o que entendi dele) – que pode conter muita verdade, mas é cínico demais para o meu gosto. Acho que se pode, sim, ter proveito sem sacrificar a honra. Não vejo como um Drummond ou um Guimarães Rosa tenham sacrificado sua honra para obter proveito literário. No caso do Brasil, como talvez especialmente da Bahia, o que acontece é que o sujeito quer ser escritor de qualquer maneira, mesmo sem nenhum talento, na base do grito, do xingamento, da difamação, da intriga, do pontapé. E com a comunicação facílima de hoje, graças à Internet, o barulho chega a todo lugar. Mas não adianta nada, mesmo, só se consegue tornar públicos os maus bofes e os maus caracteres – e, o que é ainda pior, sem nenhuma originalidade...

 

Ruy Espinheira Filho é poeta, ensaísta e romancista. Autor de, entre outros, "De paixões e de vampiros: uma história do tempo da Era" (Bertrand Brasil, 2008), que o crítico Wilson Martins considerou uma "pequena obra-prima".



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 11h39
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