SOPA DE POESIA: GUSTAVO FELICÍSSIMO


A Poesia de Ildásio Tavares

                                                     

                                           Por: Gustavo Felicíssimo

 

Ildásio Tavares

 

A poesia de Ildásio Tavares estabelece uma lírica que quer se esquivar da realidade opressora do nosso tempo, sem, contudo, deixar de reconhecê-la, como faz no poema Canto do homem cotidiano: “Eu canto o homem vulgar, desconhecido/ Da imprensa, do sucesso, da evidência/ O herói da rotina,/ O rei do pijama,/ O magnata/ Do décimo terceiro mês,/ O play-boy das mariposas/ O imperador da contabilidade.” (...) “Mas que, na frustração cotidiana,/ Vai encontrando aos poucos sua glória/ Por isso eu canto a luta sem memória/ Desse homem que perde, e não se ufana/ De no rosário de derrotas várias/ E de omissões, e condições precárias/ Poder contar com uma só vitória/ Que não se exprime nas mentiras tantas/ Espirradas sem medo das gargantas/ Mas sim no que ele vence sem saber/ E não se orgulha, campeão na história/ Da eterna luta de sobreviver.

Este é o homem que encontramos nas ruas, nos bares, nas praças, nos bancos. Homens que jogam bola, capoeira, dama, dominó. São profissionais autônomos, empregados no comércio, na indústria e funcionários públicos. Todos estes, matéria prima para a poesia.

Ciente que o tempo do artista difere do tempo do homem comum, Ildásio abre mão dos cientificismos para privilegiar o seu tempo interior e mostra-nos uma alma que difere do mundo circunstante. Alheia às necessidades humanas, a poesia insiste em colocar o inexistente acima do existente. No poema O meu tempo, do qual mostramos aqui apenas um fragmento, ele nos mostra tal implicação com clareza: “Não existe hora certa, existe o meu relógio,/ Lembrando sempre com seu tic-tac/ Que há vida/ Para ser vivida,/ Que houve a vida/ Que não se viveu./ Não importa que o rádio renitente ruja/ São tal hora e tal minuto,/ Hora oficial,/ Afinal,/ Que há de oficial em minha vida?’

Se “O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.”, como diz Cora Coralina, então, povoada de momentos de uma estória construída pelos trajetos que vem percorrendo, de análises teóricas dos autores, de poetas, de músicos, enfim, o cotidiano presente, da religiosidade, ilustrando o acadêmico, o conhecimento e as idéias, o cognitivo e o afetivo, o singular no plural, o universal no particular, com inventividade e ironia, a poesia de Ildásio, pode-se dizer, tem as qualidades necessárias para, por certo, ser considerada uma grande poesia.

Dessa forma, podemos afirmar que o substrato da sua poesia está numa determinada concepção onde o criador se constrói ao se relacionar com o mundo concreto, ao estabelecer relações e interações com outros homens, e que se apropria dos dados da cultura através das mediações simbólicas que estabelece e, que se configura por sua totalidade, causando a estranheza necessária para tirar o leitor da sua inércia e levá-lo à reflexão.

Fábio Lucas, um dos mais importantes críticos e conferencistas internacionais de literatura brasileira, unanimemente apontado como um dos críticos literários mais importantes do Brasil, reportou-se sobre o IX SONETOS DA INCONFIDÊNCIA dizendo que “O trabalho de Ildásio Tavares vai além do divertimento semântico. Sob pretexto de celebrar personagens de nossa história, constrói sonetos carregados de sentido, mensagens plurivocais, pejadas de palavras explosivas, pois, no curso da sonora abundância, se atiram além das idéias, como uma carruagem iluminada na escuridão da noite”.

E sobre seu poder de criação, o crítico literário e historiador Nelson Werneck Sodré diz: "É fácil compreender a alta qualidade do poeta. Em primeiro lugar pelo domínio da arte poética na linguagem de síntese que é sua essência. E ainda pela capacidade, nessa linguagem, praticar aquilo que Brecht ensinou, as diferentes maneiras de dizer a verdade".

 

Brecht foi e continua sendo um grande mestre, Ildásio Tavares também é.

 

 

*texto publicado originalmente no Caderno Cultural do Jornal Agora, de Itabuna



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 10h31
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ENTREVISTA COM ILDÁSIO TAVARES

 

 

GUSTAVO FELICÍSSIMO - Fazer poesia, atualmente, tem sido o mesmo que tirar de onde está vazio e colocar onde está cheio?

ILDÁSIO TAVARES – Eu diria que sempre foi muito mais perceber o vazio para tentar alcançar plenitude. A graça está na tentativa.

 

GFNa lírica moderna o poeta passou a cantar a própria poesia em oposição à realidade opressora do nosso tempo. Como você analisa tal fato?

IT – Sempre foi assim. Contudo, em nossa época, o poeta sofre uma crise tão forte de identidade ante um sistema esmagador que, às vezes, cantar sabe a um grito no escuro.

 

GF – E o que, na sua ótica, justifica esse grito?

IT – A total necessidade de expressão do indivíduo amordaçado pelo sistema.

 

GFÉ possível que a falta de critério no uso do verso livre esteja proporcionando a retomada do estudo da versificação por parte dos novos escritores ou você acha que essa é uma condição cíclica?

IT – Eu precisaria ter mais dados para fazer uma avaliação. Todavia este é um processo dialético, o esvaziamento de um conduz a valorização do outro. O verso medido nunca saiu de cena, nem em 22, mais tarde Vinicius e, com ênfase em 45. Cada período tem seu verso medido, tem seu verso livre. E precisa achá-los. Achar a dicção do seu tempo. O decassílabo de Camões e o de Carlos Falck, ambos têm dez sílabas métricas. Mas são dois versos diferentes.

 

GF – Por falar em 22, o que o modernismo trouxe de colaboração à poesia e aos poetas brasileiros?

IT – 22, por um lado, trouxe um maior sentido de liberdade e de brasilidade a uma poesia que tendia para cair na camisa de força e por outro lado a imitar apenas os modelos estrangeiros. Contudo, 22 prestou um desserviço à poesia brasileira que a partir da liberdade caiu, muitas vezes, na permissividade e no vulgarismo.

 

GFVocê já afirmou que acha mais difícil criar um poema com versos livres que um poema dentro da métrica, por quê?

IT – Por que a métrica te dá um parâmetro, uma referência fixa, um modelo estrutural para você preencher. Para o verso livre, você tem que criar este modelo estrutural. Enquanto para um você tem uma métrica geral pré-estabelecida para o outro você tem que criar uma métrica particular para cada poema. Muitos poetas quebram a cara aí porque pensam que o verso livre é anárquico ou prosaico. Não, você pode fazer arte do caos, mas não fazer caos da arte. O verso é livre, não caótico ou frouxo.

 

GFVocê está otimista quanto ao futuro da poesia feita no Brasil e na Bahia em particular?

IT – Nem otimista nem pessimista. Realista. “Oropa”, França e Bahia, sempre haverá bons e maus poetas. Difícil a má poesia grassar como um todo. Vai sempre aparecer uma luzinha brilhando.

 

GFExiste algo na literatura que o tem deixado feliz?

IT – A maior capacidade, de certo tempo pra cá, de realizar o poema do jeito exato que eu queria. Não me preocupo se o poema é bom ou ruim, se vão gostar ou não, é aquela sensação de que eu consegui colocar no papel exatamente o que eu concebi como poema, um ser, um animal, um bicho novo, me olhando ali no papel, é muito gratificante. Tenho poemas assim há mais de 20 anos na gaveta.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 10h31
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TRÊS POEMAS INÉDITOS DE ILDÁSIO TAVARES

 

A Chave do coração

 

Há sempre uma mulher à tua espera

     em uma casa à beira do caminho,

     silenciosamente atrás da porta.

     Se a porta acaso estiver trancada,

     busca a chave. Porém se a encontrares,

     podes não saber o jeito de dar voltas

     na fechadura sem causar sobressaltos.

    Por conseguinte, paciência.

     

A equação da mulher têm muitas incógnitas:

     Sete anos de pastor serviu Jacó

     outros sete anos inda serviria,

     pois abriu uma porta e outra queria.

 

 

Soneto do Sublime

 

A nossa foda é tão sublime e pura

que nossos sexos nem sequer se tocam;

que nossas peles nem sequer se roçam

no silêncio em que o ardor nos configura

sem o depois que a realidade dura,

triste e vazia traz: sem que nos possam

conter o espaço e o tempo que se apossam

de nós, trazendo o  tédio e a amargura.

Além das nuvens paira nossa foda,

rodando fugazmente sua roda,

redemoinho que não tem mais fim --

não somos tu e eu ; no instante tântrico,

se eleva o orgasmo como puro cântico,

    jamais ninguém  há-de foder  assim.

 

 

Aonde estão as moças

 

Aonde estão as moças que floriam

    a primavera azul de Itapuã

    desabrochando os corpos que vendiam

    na incerteza que mancha o amanhã?

Aonde estão estas meninas? Mora

    nas arvores a chuva, o vento, o frio:

    o inverno se assentou de vez agora;

    pouca lembrança  há de restar do estio.

Só uma nesga de sol que se insinua

    sobre as mesas de plástico molhadas ;

    só uma réstia de vida veste a rua:

    os raros transeuntes nas calçadas.

Neste deserto, sob um céu sem cor,

    procuro as sombras das moças em flor.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 10h29
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