SOPA DE POESIA: GUSTAVO FELICÍSSIMO


CANÇÃO DE FOGO RIDES AGAIN

 

Por Ildásio Tavares

 

Conheço há algum tempo Miguel Carneiro e me compraz seu talento criador e sua dignidade de ser si mesmo; sua capacidade de enfrentar de cara o pantanal literário; sua valentia. O conhecia como poeta, inclusive de versos traduzidos ao francês. Descubro-o como ficcionista, dramaturgo e cineasta, e até pergunto se esta última não é uma veia de Riachão de Jacuípe, terra do imenso Olney São Paulo, tão cedo roubado de nosso convívio, e dos filhos deste Irving (que também já partiu) e Ilya, parceiro de Miguel no curta que tem o nome do seu rincão.

 

Mas é o ficcionista que me chega às mãos, agora, para a leitura prazerosa e cativante, O Coronel já não manda mais no trecho, uma novela calcada no cinema direto do sertão; em seus personagens arquetípicos e emblemáticos que Miguel soube, com justeza, retratar. E com aquela justeza pertinente, orgânica, de dentro pra fora, em que o grotesco supera o pitoresco e a deformação ganha da simples caricatura – é muito mais uma forma de expressionismo forte do que a exploração do anedótico. Os personagens de Miguel vivem. Na abertura da novela, em pouco mais de uma página, Miguel traça um perfil cinematográfico – glauberiano – do Coronel Trazibulo Fernandes da Cunha (olha só o nome) em que desce a detalhes que só um sertanejo poderia conceber. Depois de descrever, minuciosamente, o traje do Coronel, o narrador conclui: “Tinha a estampa de um barão da renascença veneziana”, o que agrega um elemento de fantasia ao processo, um comentário de Comedia dell’Arte.

 

Mas é justamente pelo território do dramático que trafega a carruagem de Miguel, bem como as diligências do velho oeste, descortinando a interação da paisagem adusta do sertão com a paisagem sempre rica dos seres humanos que ganham até genealogia na novela, mesclando elementos de ficção a elementos históricos, e que, salvo erro ou omissão, a família de Miguel comparece  ao pódio. Vejo a preocupação de amarrar a narrativa ao real, sem contudo partir para a mera fotografia ou reportagem. Miguel narra e distorce. E nisto é ajudado pelo domínio que tem do linguajar sertanejo que esgrime com perícia, palavras e expressões corlocalistas que tingem a novela.

 

Este clima expressionista descamba afinal para o realismo mágico, bem a vezo do misticismo católico deste povo do interior, quando surge em cena a figura do espírito de Antino Soares, do Padre Viriato e de São Roque, este primorosamente descrito a partir de sua imagem no tradicional santinho, com o cachorro lhe lambendo as feridas. Fecha-se o mundo surrealista. As potências transcendentais se apresentam para combater o mal imanente. A novela de Miguel é mais um capítulo da luta do bem contra o mal, do povo contra seus opressores. Com o technicolor verdadeiro do sertão.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 18h03
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SHEAKESPEARE REVISITED

 

Tradução de Silvério Duque

 

UMA PARÁFRASE MINHA COM HONESTA E ALTIVA

SINCERIDADE DO ENTUSIASMO

 

 à Lucifrance Castro, por sua existência... 

 

To the onlie begetter of these insving sonnets…

all happinesse and that eternitie promised.

 

THOMAS THORPE

 

 

                                                         SONNET

 

When I do count the clock that tells the time,
And see the brave day sunk in hideous night;
When I behold the violet past prime,
And sable curls, all silvered o’er with white;
When lofty trees I see barren of leaves,
Which erst from heat did canopy the herd,
And summer’s green all girded up in sheaves,
Borne on the bier with white and bristly beard,
Then of thy beauty do I question make,
That thou among the wastes of time must go,
Since sweets and beauties do themselves forsake
And die as fast as they see others grow;

 

And nothing ‘gainst Time’s scythe

                                       (can make defence
Save breed, to brave him when

                                       (he takes thee hence.

 

 

                         SONETO

 

Quando a hora soa em míseros desvelos,

em noite horrenda se consome o dia,

em prata se convertem meus cabelos,

a flor, à foice, entrega sua alegria;

já sem folhas eu vejo o tronco altíssimo,

que outrora fora sombra ao manso gado,

e ir-se em funéreo passo, e em pêlo alvíssimo,

o que era verde estio, então, ceifado;

ponho-me a perguntar por tua beleza,

que se consumirá na vã ruína,

como acontece a toda Natureza,

que a todo ser vivente é dura sina;

 

pois nada a afastará da mão do Tempo

fora a prole... a assistir teu passamento.

  

 

SILVÉRIO DUQUE:

Nascido em Março de 1978, graduado em Letras pela UEFS, ajudou a fundar e integrou o grupo de declamação Os Bocas Do Inferno, além de coordenar a Escola de Música da Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense. Publicou “O crânio dos peixes” (Edições MAC/2002) e “Baladas e outros aportes de viagem” (Edições Pirapuama Ltda./2006). Seu novo livro “Ciranda de sombras” está no prelo.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 19h30
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