SOPA DE POESIA: GUSTAVO FELICÍSSIMO


Recebi faz poucos dias um e-mail do poeta Silvério Duque apresentando-me um poema, segundo ele, de um autor iniciante. Trata-se do músico saxofonista, e agora poeta, James Vasconcellos de Lima. James é de Feira de Santana e pelo fato de ser músico traz consigo algo extremamente importante e fundamental para um poema; o ritmo, a melodia, o andamento, elementos que conhece muito bem e os aplica com eficácia como podemos constatar no poema abaixo, um octossílabo afórmico, podemos dizer.

Percebemos que James possui personalidade e consciência literária que o afastarão, sem dúvida, dos achismos e demais “ismos” que insistem em infectar nossa poesia.

 

Ótima descoberta do meu amigo Silvério Duque.

 

INSTANTES 

 

 James Vasconcellos de Lima

 

Todos os dias, vivo o agora

como se o fora desde sempre.

 

O amanhã é uma memória

tão imprecisa quanto ausente. 

 

Bom seria se a cada instante

um riso invadisse minha face

 

e a cada segundo, ao semblante

obscuro, um brilho adentrasse.  

 

Se a cada instante, por menor

que seja, a alma fosse um mar

 

maior que o céu e, todo o sol,

um brilho contido em um só olhar... 

 

Ah! Todos os dias passarão

como os ribeiros, toda a vida

 

deslizará por entre as mãos

ainda lisas... Divididas...? 

 

E o tempo vagante a roer

cada semblante, cada olhar... 

 

e olhamos, em volta do rio,

as pedras, secas, ao ocaso,

 

e ao rosto, o pleno desvario.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 14h02
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DEU NO CORREIO DA BAHIA

 

A sucessão de Zélia Gattai

O baiano Antônio Torres está entre os candidatos à cadeira da escritora na ABL

 

Por Margareth Xavier

 

      “O mais difícil foi vencer a tabaroíce, a timidez do interior. Mas acho que esse pode ser o momento. Acho que Zélia me apoiaria. Jorge também”, disse Antônio Torres, que pela primeira vez concorre a uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL), na vaga deixada pela escritora Zélia Gattai (1916-2008). Nascido no sertão baiano, o escritor, com mais de uma dezena de livros publicados, é um dos três nomes que já formalizaram sua candidatura.

      O prazo para inscrições, de 60 dias, foi declarado aberto imediatamente após a Sessão de Saudade, em homenagem a Zélia. Além de Torres, também já oficializaram sua inscrição, até ontem, o jornalista e crítico musical Luiz Paulo Horta e o colunista Jeff Thomas, considerado “eterno concorrente”.

      Outros nomes, segundo a própria ABL, já manifestaram interesse, entre eles, Cláudio Murilo, Cleonice Berardinelli, Ziraldo e a crítica de teatro Bárbara Heliodora. A cadeira 23, deixada pela memorialista, tem como patrono José de Alencar e como fundador Machado de Assis. Já ocuparam o lugar os baianos Otávio Mangabeira e Jorge Amado, companheiro de Zélia, a quem ela sucedeu – num episódio inédito na instituição, no qual a viúva substituiu o marido.

      Para se inscrever é preciso ser brasileiro, ter publicadas obras de reconhecido mérito em qualquer gênero da literatura ou livros de valor literário, critérios ditados pela ABL. Encerradas as inscrições, o novo ocupante da vaga é escolhido em eleição secreta e para vencer precisa obter metade dos votos mais um. Nesses dois meses, o candidato inscrito aproveita para fazer sua “campanha”, que inclui visitas de praxe aos imortais para angariar votos. A posse é marcada em comum acordo entre a academia e o eleito.

      Torres, hoje radicado no Rio de Janeiro, só se decidiu após ceder a inumeráveis argumentos do escritor e conterrâneo Aleilton Fonseca, que considera que a vaga deveria continuar sendo baiana. Estímulo extra foi o do imortal Carlos Heitor Cony, de quem vieram preciosas dicas sobre os protocolos a serem seguidos para a inscrição. “Tomei uma decisão audaciosa e isso acaba gerando muita apreensão.

      Fui muito bem recebido na academia quando me inscrevi, mas agora é que vou começar a conversar com as pessoas”, comenta.

De espírito leve, o autor, nascido em 1940, fala com humor do que o espera nesses dois meses. “Quanto ao ânimo para enfrentar esse desafio, me sinto um garoto, mas fico envergonhado diante de sabidos. Foi preciso criar muita coragem para vencer a timidez interiorana, e olha que fazer isso de cara limpa é muito mais difícil”, diz ele, que afirma ter parado de beber e de fumar.

      Brincadeiras de lado, seu principal incentivador, Fonseca, bateu firme na tecla da candidatura, ressaltando o lugar que o escritor ocupa na literatura brasileira. Entre as dezenas de títulos publicados, destaque para Essa terra (1976), narrativa que inaugurou a carreira internacional do escritor, ao ganhar edições em diversos países, incluindo França, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e Itália. O cachorro e o lobo (1997), Um táxi para Viena d’Áustria (1991) e o recente Sobre pessoas (2007) são outros títulos que marcam sua produção literária, que começou em 1972 com Um cão uivando para a lua.

      Na Bahia - Na Academia de Letras da Bahia (ALB), onde Zélia Gattai ocupava a cadeira de número 21, a data da Sessão de Saudade ainda não foi marcada. De acordo com o protocolo da casa, só podem concorrer à vaga pré-candidatos que obtiverem pelo menos cinco indicações dos membros da instituição. A eleição acontece 30 dias após sair a lista de indicados. Além da cadeira de Zélia, ainda estão vagas na ALB as cadeiras 7, de Pedro Moacir Maia, e a 37, do ex-senador Antonio Carlos Magalhães.

 

23/05/2008



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 11h28
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