SOPA DE POESIA: GUSTAVO FELICÍSSIMO


ODE AO HOMEM PROGRAMADO

 

O bicho era o homem

Manuel Bandeira

 

Para que a ética, o amor e a moral

se os nossos valores não são nossos,

se informados por informação alguma

e pobres de reais valores como agora?

Se apenas beija-flores em floresta incendiada

choraremos nossos mortos.

Vejam as pedras ao longo do rio;

elas nos permitem passar à outra margem,

mas precisamos pulá-las

e molharemos um pouco as pernas.

Não quero com isso advertir o mundo,

mas quem quiser que viaje pela Serra da Canastra,

que vá ver onde nasce o São Francisco.

Não sou Bazin! Estou mais para Truffaut;

sonho com a conciliação entre arte e indústria.

Ademais, é necessário saber sobre a função da arte,

que não existe escola isenta, neutra ou pura,

que somos embalados e vendidos em mercados

determinados pela aferição da audiência.

Somos re-colonizados cotidianamente pela comunicação,

esfinge que devora os incautos

com seus programas e verdades homogeneizadas,

enquanto a apatia das universidades cria novos professores,

sábios mestres da verdade e da moralidade sem moral.

Somos feras nos esportes náuticos e automobilísticos,

construímos satélites, realizamos transplante de coração

e outras cirurgias sofisticadas,

mas não impedimos que nossos pares morram de fome.

Domesticamos bichos

e agora cuidamos da gente assim como cuidamos dos bichos:

deixamos que ambos remexam o lixo.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 19h29
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Sempre li os artigos de Adelino Kfoury no Jornal Agora, de Itabuna, pois, para mim, são eles o fruto de muito conhecimento, pesquisa e de uma estilistica elegante; também uma forma de conhecer melhor a história desta região, a qual tenho muita estima e laços bastante fortes. Devo dizer que chocou-me algumas das suas declarações inseridas na entrevista publicada neste mesmo jornal no dia 05 de Junho, pois depois de afirmar que possui o maior acervo existente sobre a história da nossa região e de ter esclarecido inúmeros fatos obscuros em sua história, decepcionado, afirma estar "encaixotando tudo para pensar na melhor forma de extinguir..." E tudo por pura falta de apoio, diz Adelino.

Não me admira que o historiador não tenha conseguido publicar a obra referida na entrevista, uma obra importante, penso, pois esse mundo prático trata o conhecimento como algo descartável. Que o digam os poetas. Ademais, vivemos em um tempo paupérimo de reais valores, fugaz, e isso reflete em todos os segmentos da sociedade, inclusive na cultura e em nossas universidades também.

Confunde-se os avanços tecnológicos com avanços da humanidade, o que nos dá um falso sentimento de progresso, porém, o que de fato acontece é que, em termos humanos, a humanidade caminha para trás.

            Escrevi estas linhas com o intuito de mostrar a todos, principalmente aos amigos grapiúnas, um poema, uma pequena Ode que compus em homenagem a Adelino Kfoury.


PEQUENA ODE PARA ADELINO KFOURY



Não sobrevive uma cidade sem memória,

sem cultura e sem história,

sem passado não há presente,

não há futuro ou glória.

Por isso é necessário cantar a saga do teu povo,

demarcar terreno, desvendar mistérios,

pois dentro da noite propícia para as conquistas,

onde virtude e carências se confrontam,

a história espera para ser escrita.

É quando os deuses, mais distantes que parecem,

descem ao templo dos homens

                                    (e nos encontram em dissabor,

não vivendo a bem-aventurança.

E embora não haja tempo perdido,

tantos são os significados perdidos no mundo,

tantos são os espaços para se reconquistar

que o nosso brado não pode e não deve estar recluso.

Ainda que não reconheçam tua graça,

que as intempéries te cubram de mágoas

e as pessoas se mostrem ambíguas,

eu canto em teu louvor.

Canto por reconhecer o teu valor

e para que não te sintas tão violentado

quanto as águas do Cachoeira.

A este tempo, Adelino, se incorporaram alguns demônios,

inevitáveis demônios que assolam valores mui profundos.

No entanto reside no tempo a tua redenção

e na gente Grapiúna uma gratidão infinita

que se mostra e se expande em longos suspiros.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 12h09
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