SOPA DE POESIA: GUSTAVO FELICÍSSIMO


ILHA DE ITAPARICA

 

 

 

O poente anuncia estrelas,

a lua crescente e divina

ancorada no mar da ilha

onde é musa que a todos cala.

 

Sobre as águas uma jangada,

o lume dos barcos ao longe,

um pássaro voando à toa

e a vida vestida de organza.

 

Não há terra de leite e mel,

apenas tu, Itaparica,

em teu compasso natural.

 

Nada mais singelo, senhores:

nem canções falando de amor,

nem amores nascidos ao mar.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 17h56
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À maneira dos poetas de longo fôlego, Chico César escreveu o seu “Cantáteis – Cantos Elegíacos de Amozade”, o primeiro livro do até então músico, compositor e intérprete. São 1.551 versos heptassilábicos divididos em 141 estrofes. Segundo o autor, esse poema-livro foi escrito em São Paulo, nos últimos três meses de 1993, ou seja, alguns meses antes de gravar seu primeiro disco, o “Aos Vivos”, que só viria a ser lançado em 1995. Sua intenção inicial era fazer uma espécie de elegia para uma musa da cidade e depois percebe que a própria cidade de São Paulo também era musa do poema que fala dos abismos amorosos, da perplexidade e do encantamento do aventureiro que chega de fora e ali se instala.

 

 

ENTREVISTA COM CHICO CÉSAR

 

 

Gustavo Felicíssimo – Como você avalia a receptividade que “Cantáteis”, seu livro de estréia, teve por parte da mídia e do seu público ouvinte?

Chico César – Acho que o livro se beneficiou da surpresa. As pessoas não esperavam. Independentemente disso, recebeu boas críticas por parte de publicações especializadas em literatura e na imprensa em geral. Quem compra o livro normalmente o faz em shows ou recitais em livrarias. São pessoas que acompanham o meu trabalho na música e se sentem ligadas a ele de alguma maneira.

 

GF – Sendo paraibano, de Catolé do Rocha, imagino que seu primeiro contato com a poesia se deu no ambiente da Literatura de Cordel, como a mágica aconteceu?

CC – Acho que o cordel e as litanias do catolicismo popular de minha mãe, que mesmo de poucas letras lia e recitava conosco em casa. Em latim, inclusive. O meu imaginário foi se formando através desses veios: a literatura de cordel, com seus causos fantásticos de amor, cangaço e seres misteriosos, e a literatura religiosa. O Antigo Testamento é pura poesia, com muito sangue e permanente ameaça de anjos vingadores e as constantes questões familiares de irmão e pais dispostos a cortar o pescoço dos filhos para provar sua fé. Nele o próprio Deus, o criador, parece bastante descontente com sua criação e de vez em quando surge como se quisesse destruí-la. O Novo Testamento traz o Deus da bondade, mais otimista e que sacrifica o próprio filho para salvar a humanidade. Isso tudo é muito poético. Até mesmo as riquíssimas ilustrações do catecismo em que estudávamos para fazer a primeira comunhão nos dá pistas que mais tarde reencontramos na arte universal. E nem tudo é sangue na Bíblia, lógico, O Cântico dos Cânticos, um dos mais belos poemas de amor que tive a oportunidade de ler ainda criança, é uma das referências primeiras do meu “Cantáteis”. O fato é que ambas as fontes também fornecem esteio ético e moral bastante forte, além do aspecto estético em si.

 

GF - Você se lembra dos seus folhetos preferidos? Quais eram?

CC – “O Romance do Pavão Misterioso”, que é a história de um rapaz que se apaixona por uma moça que vive em outro reino e move mundos e fundos para se casar com ela, é uma de minhas preferidas. O rapaz termina por raptá-la num aparelho voador, desafiando o poder do pai dela. Acho fantástico este cordel. Outro de que gosto muito é “Viagem ao País de São Saruê”, em que o poeta descreve sua passagem onírica para um lugar de fartura e generosidade, onde escorrem leite e mel, e os peixes já vêm assados. Uma visão perfeita da Utopia gerada num ambiente de muita adversidade. Havia também aqueles folhetos só de uma folha que meu pai comprava aos sábados na feira de Catolé do Rocha e trazia para nossa casa no sítio Rancho do Povo. A família sempre se reunia em volta da lamparina e um dos filhos lia. Eu era o mais novo e aos cinco anos comecei a ler e logo me tornei o leitor “oficial” para a audiência doméstica. Acho que para meus familiares e até mesmo vizinhos era ainda mais comovente ouvir aquelas histórias tristes e rimadas na voz hesitante de uma criança. Havia uma, por exemplo, que contava a história de uma menina que morreu jogada pela mãe dentro de um cacimbão. Outra versava sobre a dor da despedida de um filho que deixa o interior do Nordeste e buscava a sorte em São Paulo. “Meu pai me bote a benção, mamãe me abençoe também...” – e por aí vai.

 

GF – Como nasceu e em que ambiente “Cantáteis” se desenvolveu?

CC – Escrevi esse poema em São Paulo nos últimos três meses de 1993, ou seja, alguns meses antes de gravar meu primeiro disco, o “Aos Vivos”, que só viria a ser lançado em 1995. Eu o escrevi como uma espécie de elegia a uma musa da cidade. Depois percebi que a própria cidade de São Paulo era ela também musa do poema, que falava dos abismos amorosos, a perplexidade e o encantamento do aventureiro que chega de fora e ali se instala.

 

GF – Podemos dizer que por sua estrutura e ambiência ele é um Cordel pós-moderno...

CC – Eu não vejo muito por aí. É claro que há a influência do cordel, mas para mim a maior referência é as cantigas de amigo. A própria estrutura das rimas não é comum no lance do cordel. Na verdade, talvez eu, como autor, esteja muito dentro do livro e não tenha o afastamento necessário para acomodá-lo de imediato numa categoria ou, ainda, criar uma categoria para enquadrá-lo. É difícil vê-lo no ambiente do cordel por que não conta uma história, não há antagonismo. E esse negócio de pós-moderno dá uma datada que não me deixa confortável. Na verdade não sou eu quem tem que dizer isso ou aquilo. Não posso categorizá-lo. Não consigo passar do ponto em que digo que é um poema. Ainda mais agora que me coloquei o desafio de musicá-lo para colocar no palco lá pro fim do ano que vem, sendo otimista.

 

GF – Então depois de ler “Cantáteis” nós poderemos ouvi-lo também...

CC – Pois é. Eu tenho mesmo dificuldade para aceitar que algo escrito por mim permaneça sem o suporte musical. Mas nesse caso é até natural. Desde o começo eu via o poema como semente lírica para uma canta. O título já trazia isso embutido.

 

GF - Esse trabalho deve estar sendo facilitado pela própria musicalidade do poema...

CC – O ritmo das palavras, sua sonoridade, claro que ajuda. Mas são 141 estrofes com a mesma métrica. É preciso estabelecer dinâmicas harmônicas e rítmicas para evitar que se torne enfadonho. O fato de não haver antagonismo também cria dificuldades para levar ao palco. Mas não deixa de ser um desafio bem interessante trabalhar música num novo formato, diferente da canção popular que se resolve em alguns minutos.

 

GF – Nesses mais de dez anos que o livro ficou na gaveta você mexeu no poema ou você é do tipo de escritor que não gosta muito de bulir na obra depois de escrita?

CC – Ficou um tempão do jeito que escrevi. Na hora de publicar, mudei alguns poucos versos. Eu gosto de mexer, remexer nas minhas letras de música. Eu fico constrangido de ser chamado assim de escritor por que até agora eu só escrevi um livro, este “Cantáteis”. Isso é pouco representativo, não é?

 

GF – Pra você existe muita diferença entre a poesia que atende a estética literária e a letra de uma canção que muitos críticos e poetas dizem não ser poesia?

CC – Dependendo do contexto “segura o tchan, amarra o tchan, segura o tchan, tchan, tchan, tchan, tchan” poderia ser poesia concreta. Digo isso sem deboche. O contexto é fundamental para compreender se uma coisa é isso ou aquilo. Não podemos negar que poemas e letras de música usam a mesma matéria, a palavra. A maioria das coisas escritas para serem lidas em silêncio já não soam bem quando recitadas, cantadas então nem pensar. Obviamente, o contrário também ocorre. Raramente uma letra de música funciona sem a melodia. Há exceções em ambos os casos, é claro. O que não quer dizer que uma seja superior à outra a priori.

 

GF – A linguagem do seu trabalho como músico e agora como escritor caracteriza-se por ultrapassar a fronteira dos rótulos, tão comuns e necessários à indústria cultural, no entanto artistas do Nordeste, como por exemplo, Lia de Itamaracá e Cordel do Fogo Encantado, quando ganham o Sul/Sudeste têm seus trabalhos taxados de regionais – Alceu Valença que o diga – ainda que eles se adaptem aos microfones e levem sua cultura para o contexto de palco. Será isso, ainda, uma herança da nossa literatura?

CC – Não. Isso é uma visão geopolítica de poder hegemônico criado para si pelo eixo Rio-São Paulo. Tudo que é criado fora desse eixo dificilmente escapa de ser rotulado como regional. Seja de Goiás, Rio Grande do Sul ou da Amazônia. O desejo de representar todo o Brasil através de alguns símbolos, como o samba ou a bossa nova, por exemplo, é fruto de um centralismo empobrecedor e autoritário. Isso não serve, não ajuda na compreensão do que somos. E somos vários. Diversos. Não consigo entender por que um power trio de rock de São Paulo é “nacional” e um trio de forró de Alagoas ou um trio elétrico de Salvador são “regionais”. Será que só porque é power o trio de São Paulo tem mais poder? Por que não admitir que a cena artística do baixo Leblon, no Rio, é “regional” já que a do baixo Roger, em João Pessoa, seria?

 

GF – Você pretende continuar a publicar seus poemas em livro? Tem algum inédito aí no bolso que você pode nos disponibilizar para ilustrar essa entrevista?

CC - Adoraria ter outro “Cantáteis” na manga ou mesmo outros poemas soltos. Mas não tenho. Só tenho letra de música. Estou mandando pra você essa, inédita em disco, que se intitula “Desejo e Necessidade” e abre meu novo show, que faço acompanhado pelas cordas do Quinteto da Paraíba. Se servir, publiquem a vontade.

 

Entrevista publicada originalmente

na Revista Poesia & Afins



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 17h39
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