SOPA DE POESIA: GUSTAVO FELICÍSSIMO


BECO DO FUXICO

 

 

O Beco do Fuxico é o local da boemia da cidade onde moro, Itabuna. É área de comércio simples e tradicional, com casas antigas, bem no coração do município.

A denominação “Beco do Fuxico”, segundo nos informa o romancista Adylson Machado no livro “O ABC do Cabôco”, antecede a instalação do município, na primeira década do Século XX. Ainda segundo Adylson a origem do nome “fuxico” residiria no fato de o local abrigar uma concentração de alfaiates, barbeiros, sapateiros e considerável quantidade de quitandas, tidos e reconhecidos como pessoas e endereços fartos de vocação à fuxicaria.

Pois bem.

Acontece que depois de morar ano e meio por lá, sempre nutri vontade de conceber um poema que fosse a cara do local. Essa vontade me acompanhou por longo tempo, tempo necessário para a gestação do poema que se dá no diálogo diário com os fatos, a história do local, sua arquitetura, os casos e causos, até que o poema por si só se faça urgente e necessário.

Finalmente, depois de muita labuta, o poema aconteceu. Os leitores mais atentos notarão que há certa influência de Bandeira, mais notadamente do ritmo de “Vou-me embora pra Pasárgada” e sua construção de elementos imagéticos.

Enviei o poema denominado “BECO DO FUXICO” ao também poeta e amigo, Miguel Carneiro, que possui um exemplar do livro de Adylson Machado, com a intenção de colher sua impressão sobre o mesmo. Mas quando o bardo do Santo Antônio Além do Carmo me respondeu foi, para minha felicidade, com um outro poema, também intitulado “BECO DO FUXICO”.

Seguem abaixo os poemas que agora damos à cidade e àqueles que os abraçarem. Ambos são dedicados a todos os freqüentadores do Beco, em especial a Agenor Gasparetto, Adylson Machado, Jorge de Souza Araújo, Dr. Newton, Dr. Mirson, Napoleão, Dr. Pepê, José Senna, Walmir do Rosário, Manuel do Bar, Eduardo, Robinho, Jacozinho, Leléu e ao poeta Firmino Rocha (in memorian).

 

BECO DO FUXICO

 

Gustavo Felicíssimo

 

Vou agora lá pro Beco,

aquele é o meu lugar!

Lá tem batidas do Cabôco

e moça bonita pra gente olhar.

Lá tem muita gente boa.

Tem comunista e carlista se abraçando

            feito antigos aliados;

tem pescadores, caçadores e mentirosos

            pra tudo quanto é lado.

O Beco é feito de lendas

e gente comum,

é feito de poetas, jornalistas

e outros calhordas.

O Beco é feito de magia!

Vou agora lá pro Beco,

dito Beco do Fuxico.

Vou beber o meu café no Manuel,

depois fazer a barba no Seo Jonas;

se o tempo esfriar

eu tomo uma no Whiskytório;

lá tem batatinha e cebolinha na conserva.

Lá tem a bodega do Eduardo,

onde não falta cerveja gelada

e uma turma disposta a prosear.

Vou agora lá pro Beco,

não vou a qualquer lugar.

 

 

Beco do Fuxico

 

 Miguel Carneiro

 

 Em minha infância

 Itabuna surgia como uma terra distante,

 onde os trabalhadores baixavam

 na lavoura do cacau

 onde vicejava o vil metal.

 Aprendi a amar Itabuna

 através da obra de Adonias,

 Lendo "Berro de Fogo" de Cyro de Mattos,

 ouvindo as baladas de Adelmo Oliveira

 na obra poética de Ildásio Tavares,

 Telmo Padilha, José Almiro

 e poetas grapiúnas

 que não mais revisito ou leio,

 apesar da pompa e da posição.

 Todo trecho tem fuxico, tem trança

 e conversa de pé de balcão.

 Mas, Itabuna,

 um dia te visito

 e vou ao Beco do Fuxico

 bater papo com Caboclo Alencar

 sem me importar

 com horário ou estação.

 Vou a Itabuna,

 lá vai ser minha perdição.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 11h04
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PARA OS QUE ESTÃO EM SALVADOR

NOVO DOCUMENTÁRIO DE CARLOS PRONZATO,

O ARGENTINO MAIS BAIANO QUE CONHEÇO

 

BUSCANDO A ALLENDE

documentário de Carlos Pronzato

 

Salvador Allende

                                                                                                      Salvador Allende

 

Salvador Allende nasceu em Santiago ou em Valparaíso? A partir desta controvérsia tratada como chave no filme, começa a pesquisa que este documentário realiza sobre um dos presidentes latino-americanos que mais está presente na  memória popular do continente. A busca se dá não apenas para tentar descobrir a sua cidade natal, mas principalmente abordar as dificuldades de Allende para levar adiante o seu projeto político de transformação social e das causas da trágica queda da "via chilena ao socialismo" no dia 11 de setembro de 1973.

O sucesso eleitoral da Unidade Popular no contexto guerrilheiro dos anos 70 adquire dimensões de um enigma político para os Estados Unidos que decidem, sem maiores considerações, esmagar este novo exemplo que se opõe, de maneira pacífica, aos seus interesses econômicos. E para desvendar as incógnitas desta pesquisa documental,  relatam sua experiência ex-ministros, funcionários e militantes da UP (Unidade Popular), amigos íntimos de Allende, jornalistas, investigadores e militantes de movimentos sociais.

Entre os entrevistados figuram Carmen Lazo, dirigente histórica do Partido Socialista; Víctor Pey, refugiado espanhol desde 1939 e íntimo amigo de Salvador Allende; Jacques Chonchol, ex-Ministro de Agricultura durante a Reforma Agrária; Juan Carlos Concha, ex-Ministro da Saúde , responsável pela mais popular das famosas 40 medidas do governo, a da entrega diária do meio litro de leite para todas as crianças chilenas; Mireya Baltra, ex-Ministra do Trabalho, entre outros.

As gravações foram realizadas em fevereiro/março de 2007 e de 2008 em Santiago e Valparaíso, no Chile.

 

Buscando a Allende  teve sua pré-estréia no Chile em junho de 2008 durante as Jornadas Allendistas no centenário de Salvador Allende e posteriormente em Buenos Aires, Argentina. 

 

Serviço

O quê? Lançamento Oficial do documentário Buscando a Allende

Quando? 30/09 às 19h30

Onde?  Instituto Cervantes - Avenida Sete de Setembro, 2792 Ladeira Barra , Salvador-BA 

 

BUSCANDO a ALLENDE

Duração: 70 minutos

Realização: La Mestiza Audiovisual (Brasil)

Direção, Roteiro e Câmera: Carlos Pronzato

Edição: Stefano Barbi Cinti

Assistência de Produção (Brasil): Denise Santos

Assistência de Produção (Chile): Maria Paz

Assessoria de Investigação Histórica: Maysa Paranhos

Design Gráfico e Finalização: Omar Neri (Mascaró Cine Americano)

Apoio cultural: Centro Cultural Violeta Parra (Valdívia, Chile)

 

 

Contatos:

Assessoria de Imprensa: Carollini Assis

carolliniassis@hotmail.com

 

Diretor: Carlos Pronzato

cpronza8@yahoo.com.br



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 13h54
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CONSIDERAÇÕES SOBRE O VERSO DE OITO SÍLABAS

 

Gustavo Felicíssimo

 

O verso de oito sílabas comporta vários tipos, os mais utilizados ao longo do tempo por autores brasileiros como Gonçalves Dias, Cruz e Souza e Alberto de Oliveira, por exemplo, foram, basicamente, com cesura na 4ª e 8ª sílabas, variando para 3ª e 8ª, e também 2ª, 5ª e 8ª.

Alguns poetas, como o simbolista Antônio Nobre, desarticularam o andamento dos seus octossílabos, variando a cesura, mas foi com os modernistas que a desarticulação maior começou a ocorrer, mais visivelmente em Cecília Meireles com o poema “Pergunta” e Manuel Bandeira em “Madrigal para as debutantes de 1946”.

Atualmente a desarticulação maior fica por conta do poeta Alberto da Cunha Melo que, deliberadamente, eliminou a cesura medial nos seus versos octossílabos, como neste fragmento do poema Casa Vazia:

 

Poema nenhum, nunca mais,

será um acontecimento:

escrevemos cada vez mais

para um mundo cada vez menos

 

O octossílabo de Alberto da Cunha Melo é um verso não ortodoxo, com cesura marcadamente apenas na 8ª sílaba. Com ele o poeta privilegia a melodia, o andamento, a dança do verso, sem amarras. Desde seus primeiros livros Círculo Cósmico (1966) e Oração Pelo Poema (1969), o Alquimista de Olinda utilizou tal formato.

Temos a impressão que o poeta pernambucano é o brasileiro que mais utilizou o octossílabo em sua lírica, chegando mesmo a criar a Retranca, uma forma poética que se caracteriza por um esquema em quatro estrofes com a seguinte disposição: 4,2,3,2, com oito sílabas métricas por verso, onde o quarteto tem assonâncias no segundo e quarto versos; o primeiro dístico com assonâncias aparelhadas; o terceto com assonâncias no primeiro e terceiro versos da estrofe e um dístico final com rimas consonantais.

Na Bahia, além deste blogueiro, diversos poetas estão fazendo Retrancas atualmente. Um deles é o poeta Silvério Duque, de Feira de Santana. Acompanhemos o poema “Para um pôr-do-sol no Recife”:


– Não penso, Poeta, em tua vida...
mas neste ofício que consome
nossas melhores esperanças,
nutrindo, do Amor, toda a fome,

 

neste manejo de palavras
a destruir sua própria lavra

e que é tão nosso quanto o tempo
ou o acumular de nossas noites
( forçosa negação da morte )

porque o temor da Eternidade
nos consola ante a Realidade.

 

Outro cultivador de Retrancas no seu jardim da poesia é o poeta soteropolitano Bernardo Linhares como no poema “Madrepérola”:

 

O céu também é madrepérola

no seio cálido da aurora;

as minhas mãos são duas conchas,

onde deslizam tuas pérolas;

 

são duas pérolas douradas,

brilhando assim, tranqüilas, claras;

 

em meio às luzes desse bálsamo

e o céu da boca à flor da pele,

levo nas mãos teu coração;

 

ao florir das primeiras horas,

teu seio é cálido  na aurora.

 

Já esse blogueiro possui hoje um livro em sua maioria composto por Retrancas, como o poema abaixo, o primeiro fragmento de uma composição de médio fôlego, intitulada “Procura”, formada por dez Retrancas, 110 versos octossílabos.

 

Procuro um verso imaculado

feito água pura de cacimba,

um verso que devore a noite

feito a esgrima de uma rima;

 

um verso que abra a porta e siga

a sina viva da cantiga;

 

que lance luz sobre a cegueira

nossa de todo amanhecer

e que descubra as cordilheiras,

 

a manhã distinta e seus tons,

afável senhora dos sons.

 

Duas postagens abaixo o leitor pode conhecer outra Retranca de nossa autoria, trata-se do poema “Sinestesia”, postado dia 20.

 

Sabemos de pelo menos outros dois poetas baianos que estão a criar Retrancas, mas, infelizmente, não dispomos dos versos destes. Outrossim, gostaríamos de saber se em Pernambuco, terra de Alberto da Cunha Melo, a forma por ele cunhada vem sendo cultivada por seus vates.

Com a palavra, nossos amigos pernambucanos.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 23h09
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 O epigrama, para o bem ou para o mal, está em evidência na Bahia de hoje, por isso resolvi publicar o texto abaixo, de Wilson Lins. Mas vale lembrar o que diz Sanz de Robles em seu Diccionario de la literatura: “o epigrama é fruto serôdio das civilizações decadentes”.

 

O maior epigramista da Bahia de hoje

 

         Ildásio Tavares extrapola a condição de bissexto, tal a consistência com que freqüenta o epigrama. Romancista, poeta, professor de letras, tem consciência dos riscos a que se expõe quando maneja a sátira, e confessa o seu receio nesta quadrinha:

 

         É o “animus jocandi”

         que nesses versos persigo

         mas até com uma quadra

         se faz um bom inimigo.

 

         Em reconhecendo o perigo, anima-se a curtir os poderosos:

 

         Poeta, pintor, presidente

         esse homem dos três pês

         consegue ser competente

         na incompetência dos três.

 

         Único poeta moderno a exercitar, na Bahia, o epigrama na sua forma consagrada, não poupa os amigos mais íntimos:

 

         Jorge Amado torturado

         com seus romances ruins,

         respirou aliviado:

         - Meu consolo é Wilson Lins.

 

         Amigo, te dou em dobro

         tudo aquilo que me deres

         eu te dou Remy de Souza

         por Fernando Rocha Peres.

 

 Fonte: Lins, Wilson. Musa Vingadora, Edufba, 1999.

 

Vale lembrar que no dia 24 (quarta-feira), às 19hs, na Câmara de Vereadores de Salvador, o poeta Ildásio Tavares receberá a comenda Zumbi dos Palmares.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 09h22
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