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BECO DO FUXICO
O Beco do Fuxico é o local da boemia da cidade onde moro, Itabuna. É área de comércio simples e tradicional, com casas antigas, bem no coração do município.
A denominação “Beco do Fuxico”, segundo nos informa o romancista Adylson Machado no livro “O ABC do Cabôco”, antecede a instalação do município, na primeira década do Século XX. Ainda segundo Adylson a origem do nome “fuxico” residiria no fato de o local abrigar uma concentração de alfaiates, barbeiros, sapateiros e considerável quantidade de quitandas, tidos e reconhecidos como pessoas e endereços fartos de vocação à fuxicaria.
Pois bem.
Acontece que depois de morar ano e meio por lá, sempre nutri vontade de conceber um poema que fosse a cara do local. Essa vontade me acompanhou por longo tempo, tempo necessário para a gestação do poema que se dá no diálogo diário com os fatos, a história do local, sua arquitetura, os casos e causos, até que o poema por si só se faça urgente e necessário.
Finalmente, depois de muita labuta, o poema aconteceu. Os leitores mais atentos notarão que há certa influência de Bandeira, mais notadamente do ritmo de “Vou-me embora pra Pasárgada” e sua construção de elementos imagéticos.
Enviei o poema denominado “BECO DO FUXICO” ao também poeta e amigo, Miguel Carneiro, que possui um exemplar do livro de Adylson Machado, com a intenção de colher sua impressão sobre o mesmo. Mas quando o bardo do Santo Antônio Além do Carmo me respondeu foi, para minha felicidade, com um outro poema, também intitulado “BECO DO FUXICO”.
Seguem abaixo os poemas que agora damos à cidade e àqueles que os abraçarem. Ambos são dedicados a todos os freqüentadores do Beco, em especial a Agenor Gasparetto, Adylson Machado, Jorge de Souza Araújo, Dr. Newton, Dr. Mirson, Napoleão, Dr. Pepê, José Senna, Walmir do Rosário, Manuel do Bar, Eduardo, Robinho, Jacozinho, Leléu e ao poeta Firmino Rocha (in memorian).
BECO DO FUXICO
Gustavo Felicíssimo
Vou agora lá pro Beco,
aquele é o meu lugar!
Lá tem batidas do Cabôco
e moça bonita pra gente olhar.
Lá tem muita gente boa.
Tem comunista e carlista se abraçando
feito antigos aliados;
tem pescadores, caçadores e mentirosos
pra tudo quanto é lado.
O Beco é feito de lendas
e gente comum,
é feito de poetas, jornalistas
e outros calhordas.
O Beco é feito de magia!
Vou agora lá pro Beco,
dito Beco do Fuxico.
Vou beber o meu café no Manuel,
depois fazer a barba no Seo Jonas;
se o tempo esfriar
eu tomo uma no Whiskytório;
lá tem batatinha e cebolinha na conserva.
Lá tem a bodega do Eduardo,
onde não falta cerveja gelada
e uma turma disposta a prosear.
Vou agora lá pro Beco,
não vou a qualquer lugar.
Beco do Fuxico
Miguel Carneiro
Em minha infância
Itabuna surgia como uma terra distante,
onde os trabalhadores baixavam
na lavoura do cacau
onde vicejava o vil metal.
Aprendi a amar Itabuna
através da obra de Adonias,
Lendo "Berro de Fogo" de Cyro de Mattos,
ouvindo as baladas de Adelmo Oliveira
na obra poética de Ildásio Tavares,
Telmo Padilha, José Almiro
e poetas grapiúnas
que não mais revisito ou leio,
apesar da pompa e da posição.
Todo trecho tem fuxico, tem trança
e conversa de pé de balcão.
Mas, Itabuna,
um dia te visito
e vou ao Beco do Fuxico
bater papo com Caboclo Alencar
sem me importar
com horário ou estação.
Vou a Itabuna,
lá vai ser minha perdição.
Escrito por Gustavo Felicíssimo às 11h04
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PARA OS QUE ESTÃO EM SALVADOR
NOVO DOCUMENTÁRIO DE CARLOS PRONZATO,
O ARGENTINO MAIS BAIANO QUE CONHEÇO
BUSCANDO A ALLENDE
documentário de Carlos Pronzato

Salvador Allende
Salvador Allende nasceu em Santiago ou em Valparaíso? A partir desta controvérsia tratada como chave no filme, começa a pesquisa que este documentário realiza sobre um dos presidentes latino-americanos que mais está presente na memória popular do continente. A busca se dá não apenas para tentar descobrir a sua cidade natal, mas principalmente abordar as dificuldades de Allende para levar adiante o seu projeto político de transformação social e das causas da trágica queda da "via chilena ao socialismo" no dia 11 de setembro de 1973.
O sucesso eleitoral da Unidade Popular no contexto guerrilheiro dos anos 70 adquire dimensões de um enigma político para os Estados Unidos que decidem, sem maiores considerações, esmagar este novo exemplo que se opõe, de maneira pacífica, aos seus interesses econômicos. E para desvendar as incógnitas desta pesquisa documental, relatam sua experiência ex-ministros, funcionários e militantes da UP (Unidade Popular), amigos íntimos de Allende, jornalistas, investigadores e militantes de movimentos sociais.
Entre os entrevistados figuram Carmen Lazo, dirigente histórica do Partido Socialista; Víctor Pey, refugiado espanhol desde 1939 e íntimo amigo de Salvador Allende; Jacques Chonchol, ex-Ministro de Agricultura durante a Reforma Agrária; Juan Carlos Concha, ex-Ministro da Saúde , responsável pela mais popular das famosas 40 medidas do governo, a da entrega diária do meio litro de leite para todas as crianças chilenas; Mireya Baltra, ex-Ministra do Trabalho, entre outros.
As gravações foram realizadas em fevereiro/março de 2007 e de 2008 em Santiago e Valparaíso, no Chile.
Buscando a Allende teve sua pré-estréia no Chile em junho de 2008 durante as Jornadas Allendistas no centenário de Salvador Allende e posteriormente em Buenos Aires, Argentina.
Serviço
O quê? Lançamento Oficial do documentário Buscando a Allende
Quando? 30/09 às 19h30
Onde? Instituto Cervantes - Avenida Sete de Setembro, 2792 Ladeira Barra , Salvador-BA
BUSCANDO a ALLENDE
Duração: 70 minutos
Realização: La Mestiza Audiovisual (Brasil)
Direção, Roteiro e Câmera: Carlos Pronzato
Edição: Stefano Barbi Cinti
Assistência de Produção (Brasil): Denise Santos
Assistência de Produção (Chile): Maria Paz
Assessoria de Investigação Histórica: Maysa Paranhos
Design Gráfico e Finalização: Omar Neri (Mascaró Cine Americano)
Apoio cultural: Centro Cultural Violeta Parra (Valdívia, Chile)
Contatos:
Assessoria de Imprensa: Carollini Assis
carolliniassis@hotmail.com
Diretor: Carlos Pronzato
cpronza8@yahoo.com.br
Escrito por Gustavo Felicíssimo às 13h54
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CONSIDERAÇÕES SOBRE O VERSO DE OITO SÍLABAS
Gustavo Felicíssimo
O verso de oito sílabas comporta vários tipos, os mais utilizados ao longo do tempo por autores brasileiros como Gonçalves Dias, Cruz e Souza e Alberto de Oliveira, por exemplo, foram, basicamente, com cesura na 4ª e 8ª sílabas, variando para 3ª e 8ª, e também 2ª, 5ª e 8ª.
Alguns poetas, como o simbolista Antônio Nobre, desarticularam o andamento dos seus octossílabos, variando a cesura, mas foi com os modernistas que a desarticulação maior começou a ocorrer, mais visivelmente em Cecília Meireles com o poema “Pergunta” e Manuel Bandeira em “Madrigal para as debutantes de 1946”.
Atualmente a desarticulação maior fica por conta do poeta Alberto da Cunha Melo que, deliberadamente, eliminou a cesura medial nos seus versos octossílabos, como neste fragmento do poema Casa Vazia:
Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos
O octossílabo de Alberto da Cunha Melo é um verso não ortodoxo, com cesura marcadamente apenas na 8ª sílaba. Com ele o poeta privilegia a melodia, o andamento, a dança do verso, sem amarras. Desde seus primeiros livros Círculo Cósmico (1966) e Oração Pelo Poema (1969), o Alquimista de Olinda utilizou tal formato.
Temos a impressão que o poeta pernambucano é o brasileiro que mais utilizou o octossílabo em sua lírica, chegando mesmo a criar a Retranca, uma forma poética que se caracteriza por um esquema em quatro estrofes com a seguinte disposição: 4,2,3,2, com oito sílabas métricas por verso, onde o quarteto tem assonâncias no segundo e quarto versos; o primeiro dístico com assonâncias aparelhadas; o terceto com assonâncias no primeiro e terceiro versos da estrofe e um dístico final com rimas consonantais.
Na Bahia, além deste blogueiro, diversos poetas estão fazendo Retrancas atualmente. Um deles é o poeta Silvério Duque, de Feira de Santana. Acompanhemos o poema “Para um pôr-do-sol no Recife”:
– Não penso, Poeta, em tua vida... mas neste ofício que consome nossas melhores esperanças, nutrindo, do Amor, toda a fome,
neste manejo de palavras a destruir sua própria lavra
e que é tão nosso quanto o tempo ou o acumular de nossas noites ( forçosa negação da morte )
porque o temor da Eternidade nos consola ante a Realidade.
Outro cultivador de Retrancas no seu jardim da poesia é o poeta soteropolitano Bernardo Linhares como no poema “Madrepérola”:
O céu também é madrepérola
no seio cálido da aurora;
as minhas mãos são duas conchas,
onde deslizam tuas pérolas;
são duas pérolas douradas,
brilhando assim, tranqüilas, claras;
em meio às luzes desse bálsamo
e o céu da boca à flor da pele,
levo nas mãos teu coração;
ao florir das primeiras horas,
teu seio é cálido na aurora.
Já esse blogueiro possui hoje um livro em sua maioria composto por Retrancas, como o poema abaixo, o primeiro fragmento de uma composição de médio fôlego, intitulada “Procura”, formada por dez Retrancas, 110 versos octossílabos.
Procuro um verso imaculado
feito água pura de cacimba,
um verso que devore a noite
feito a esgrima de uma rima;
um verso que abra a porta e siga
a sina viva da cantiga;
que lance luz sobre a cegueira
nossa de todo amanhecer
e que descubra as cordilheiras,
a manhã distinta e seus tons,
afável senhora dos sons.
Duas postagens abaixo o leitor pode conhecer outra Retranca de nossa autoria, trata-se do poema “Sinestesia”, postado dia 20.
Sabemos de pelo menos outros dois poetas baianos que estão a criar Retrancas, mas, infelizmente, não dispomos dos versos destes. Outrossim, gostaríamos de saber se em Pernambuco, terra de Alberto da Cunha Melo, a forma por ele cunhada vem sendo cultivada por seus vates.
Com a palavra, nossos amigos pernambucanos.
Escrito por Gustavo Felicíssimo às 23h09
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O epigrama, para o bem ou para o mal, está em evidência na Bahia de hoje, por isso resolvi publicar o texto abaixo, de Wilson Lins. Mas vale lembrar o que diz Sanz de Robles em seu Diccionario de la literatura: “o epigrama é fruto serôdio das civilizações decadentes”.
O maior epigramista da Bahia de hoje
Ildásio Tavares extrapola a condição de bissexto, tal a consistência com que freqüenta o epigrama. Romancista, poeta, professor de letras, tem consciência dos riscos a que se expõe quando maneja a sátira, e confessa o seu receio nesta quadrinha:
É o “animus jocandi”
que nesses versos persigo
mas até com uma quadra
se faz um bom inimigo.
Em reconhecendo o perigo, anima-se a curtir os poderosos:
Poeta, pintor, presidente
esse homem dos três pês
consegue ser competente
na incompetência dos três.
Único poeta moderno a exercitar, na Bahia, o epigrama na sua forma consagrada, não poupa os amigos mais íntimos:
Jorge Amado torturado
com seus romances ruins,
respirou aliviado:
- Meu consolo é Wilson Lins.
Amigo, te dou em dobro
tudo aquilo que me deres
eu te dou Remy de Souza
por Fernando Rocha Peres.
Fonte: Lins, Wilson. Musa Vingadora, Edufba, 1999.
Vale lembrar que no dia 24 (quarta-feira), às 19hs, na Câmara de Vereadores de Salvador, o poeta Ildásio Tavares receberá a comenda Zumbi dos Palmares.
Escrito por Gustavo Felicíssimo às 09h22
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