SOPA DE POESIA: GUSTAVO FELICÍSSIMO


Se existe um termo problemático é esse pós-modernidade. Surgiu na arquitetura significando exaustão das formas lisas, planas, limpas do futurismo e modernismo mais uma proposta de recuperação de estilos antigos. Uma fusão, apropriação de formas. Na literatura isto foi empregado de maneira confusa e contraditória. Uns espertos andaram se chamando de pós-moderno na literatura, para faturarem o dernier cri. Nas artes plásticas é ainda mais confuso, se mistura com várias coisas. De uma maneira geral, os ensaístas e historiadores dizem que a pós-modernidade atingiu seu apogeu nos anos 80 e começou a decair. Então, o pobre estudante vai se indagar: Onde estamos agora? Na pós-pós? Por essas e por outras é que Umberto Eco, numa discussão com o pós-moderno Richard Rorty, foi logo ironizando e dizendo que ele, Umberto Eco, era pós-antigo, e deu vários exemplos de como vários itens dessa ideologia existiam na antiguidade sob outros disfarces.

 

Affonso Romano de Sant’Anna em entrevista nos "CADERNOS DE PSICANÁLISE" SPCRJ (SOCIEDADE DE PSICANÁLISE DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO)

Blog do Affonso: http://www.affonsoromano.com.br/

 



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 15h57
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A catástrofe dos Cursos de Letras

                                        Por Marcos Bagno

 

A formação dos professores de português, hoje no Brasil, é uma catástrofe. Nós, responsáveis pelos cursos de Letras, não enxergamos a bomba-relógio que temos nas mãos. As estatísticas não mentem: a retumbante maioria dos estudantes de Letras vem de camadas sociais pobres ou mesmo miseráveis, filhos de pais analfabetos ou que têm escolarização inferior a quatro anos. Isso significa muita coisa. Significa que esses estudantes têm um histórico de letramento reduzido: no ambiente familiar, não convivem com a cultura letrada, não têm acesso a livros, revistas, enciclopédias. Não são falantes das normas urbanas de prestígio (as mesmas que supostamente terão de ensinar a seus futuros alunos) e têm domínio escasso da leitura e da escrita. Só na faculdade é que a maioria deles vai ler, pela primeira vez na vida, um romance inteiro ou um texto teórico.

Vêm, quase todos, do ensino público, essa tragédia ecológica brasileira pior que as queimadas na Amazônia. Nós, porém, fingimos que eles são ótimos leitores e redatores, e despejamos sobre eles, logo no primeiro semestre, teorias sofisticadas, que exigem alto poder de abstração e familiaridade com a reflexão filosófica, e textos de literatura clássica, escritos numa língua que para eles é quase estrangeira. E assim vamos nos iludindo e iludindo os estudantes.

O resultado é que os estudantes de Letras saem diplomados sem saber lingüística, sem saber teoria e crítica literária e sem saber escrever um texto acadêmico com pé e cabeça. Todos os dias, recebo mensagens de formandos que me pedem orientação para seus trabalhos finais. Alguns até me enviam seus projetos. São textos repletos de erros primários de ortografia, pontuação, sintaxe, vocabulário, com frases truncadas e sem sentido. Assim eles chegam ao final do curso, e suas monografias, mal escritas, sem nenhum rigor teórico ou metodológico, são aprovadas alegres e irresponsavelmente por seus supostos orientadores.

O problema, é claro, não está no fato (que merece comemoração) de acolhermos na universidade alunos vindos das camadas mais desfavorecidas da população. O problema é não oferecermos a eles condições de, primeiro, se familiarizar com o mundo acadêmico, que lhes é totalmente estranho, por meio de cursos intensivos (e exclusivos) de leitura e produção de textos, de muita leitura e muita produção de textos, para só depois desses (no mínimo) dois anos de preparação eles poderem começar a adentrar o terreno das teorias, das reflexões filosóficas, da alta literatura. Se não fizermos isso urgentemente (anteontem!), as salas de aula do ensino básico estarão ocupadas por professores que, mal sabendo ler e escrever adequadamente, não poderão desempenhar sua principal tarefa: ensinar a ler e a escrever adequadamente! Não sei, aliás, por que escrevi "estarão ocupadas": elas já estão ocupadas, neste momento, por essas pessoas, de quem se cobra tanto e a quem não se oferece uma formação docente que também seja, minimamente, decente.

 

Artigo publicado originalmente na revista Caros Amigos,

edição de novembro de 2008.

 

Site do Bagno: http://www.marcosbagno.com.br/



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 10h23
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TRÊS PERGUNTAS PARA

JORGE ELIAS NETO

MÉDICO E POETA CAPIXABA

 

 

GF – Jorge, o exercício da cardiologia, uma área tão delicada da medicina, foi que te trouxe esse arsenal existencialista impresso na sua poesia, ou isso é algo inerente ao seu ser?

Jorge Elias Neto - Quando pequeno, muito me chamou a atenção a estória de David Copperfield que desde a mais tenra idade teve que lidar com a idéia de morte e de perda. De alguma forma, ficou em mim incutida a impressão que eu deveria ser uma pessoa forte a lidar com a morte e que, em algum momento, me confrontaria com a “inesperada das gentes”. Percebi, com o tempo, que essa tarefa não me seria assim tão fácil...

Tornei-me médico, lidei com inúmeros casos graves, presenciei, ao longo dos últimos 25 anos, as diversas formas como o homem, à beira da morte, bem como os seus convivas, enfrentavam esse momento único e, para mim, definitivo (a verdade básica da vida).

E esse enfrentamento tornou-se uma questão de vida: trabalhar a idéia de morte e entender a multiplicidade de atitudes do homem frente a essa locomotiva que “sempre chega pontualmente na hora incerta”. Passei a entender a relevância desse entendimento na minha formação como homem. Li as reflexões nos Ensaios de Montaigne, n’O sofrimento do jovem Werther, de Goethe, Nietsche, Kant, Camus e fui fazendo meu percurso.

Hoje, tenho a tendência a crer que a morte é branca, que é o nosso retorno à irracionalidade e à nossa perfeita integração ao caos universal. Entendi que esse absurdo – a coexistência entre o homem e o universo –, só vale a pena se repisarmos cada segundo e que, para mim, já não é mais permitido o alento da religião. É difícil, eu sei, mas esse é o meu caminho.

Daí minha poesia ser carregada de questões metafísicas, existencialistas. Nela busco expressar minhas meias-verdades.

 

Ninguém deixou de sentir alguma vez que o destino é poderoso e estúpido, que é inocente e também inumano. Para essa convicção, que pode ser passageira ou contínua, mas que ninguém evita, podemos escrever nossos versos

                                     Jorge Luis Borges

 

GF- Em que medida você vê o poeta marcado pelos elementos do mito de Sísifo?

JEN - Por que viver? Em um poema onde retrato o suicida, eu narro um fato real. Um amigo “comum”, trabalhador, bem situado profissionalmente, do tipo “família”, após realizar sua grande obra profissional – suicidou-se. Retirei seu corpo do mar juntamente com dois amigos: um ascético extremo e um espírita. Naquele momento, olhei meu amigo morto e observei a reação de meus outros amigos. No meu caso, me pareceu clara a decisão dele: cansou-se da rotina de rolar a vida e, ao constatar o absurdo de viver, decidiu dar o salto para o nada.

Como disse Nietsche: “Cada um tem a verdade que é capaz de suportar”.

Quanto ao poeta?... Bem, o poeta, como todo ser humano, é marcado pelos elementos do mito de Sísifo.

O poeta é o protótipo do herói absurdo, tal qual Sísifo. A poesia se faz da vida do poeta, dos seus “guardados”. Respondo esta questão à partir do meu entendimento: optei pela vida e tento levá-la da forma mais intensa possível – tento insistentemente entendê-la.

Rolo as pedras, e coloco em minha poesia meu processo de aprendizado. Quanto a ser um médico ou um poeta, para ambos é necessário o fazer diário, mas com o prazer comedido do eterno aprendiz.

Acho que o poeta é um felizardo ao conseguir, nos momentos em que se encontra no limiar da melancolia, ter a possibilidade de externar seus pensamentos na forma de poema.

Desculpem-me os que vêem a poesia de uma forma mecanicista, mas creio na poesia que parte de uma emoção (com consciência e sem pieguices, é claro). CONTINUA...



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 09h53
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GF - Não te pedirei escolhas entre a poesia e a medicina. Mas, pegando uma carona em Rilke, eu te pergunto: serias capaz de viver sem uma ou outra atividade?

JEN - Não. Na minha adolescência iniciei uma pausa de 25 anos em relação ao fazer poético, período este totalmente dedicado a minha formação profissional, durante o qual tudo que escrevi foram textos médicos.

Certo dia, retomei a poesia e sinto que ela também passou a ser essencial no meu sentido de estar vivo. É óbvio que, apesar dos avanços na medicina cada vez aumentarem minha possibilidade de manter-me ativo profissionalmente, tornar-me-ei um profissional ultrapassado, mas isso é algo natural.

Quanto ao poeta, este ainda é muito jovem e pleno de incertezas e imperfeições. Espero que meus conhecimentos como médico, apesar das idiossincrasias cometidas, permitam-me uma terceira idade madura na poesia.

Penso que ambas, a poesia e a medicina, me permitirão um legado sem tragédia.

 

 

                    Sobre o mito de Sísifo

 

                    A labuta não respeita o portal das casas.

                    Dentro e fora – rolam-se pedras.

 

                    – Avisem-me

                    quem joga o bilboquê de pedra

                    dos dias.

 

                    E segue o homem-bastão

                    entre romper o barbante

                    ou deixar que lhe caia sobre a cabeça

                    o peso da tomada de consciência.

 

                    O homem é um ser interrompido.

 

                    Seja no curtume das horas

                    ou nas contas do terço,

                    ele sempre se agasalha

                    com a tênue esperança.

 

                    “roda peão,

                    bambeia peão...”

                    No absurdo de agora

                    e à espera da vida eterna,

                    Amém!

 

Blog do Jorge:

http://www.jeliasneto.blogspot.com/



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 09h51
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RETRANCA: UMA "FORMA FIXA"

BEM BRASILEIRA

 

São muito poucas as formas fixas utilizadas na poesia. Uma delas, a Retranca, foi criada por um poeta brasileiro, o pernambucano Alberto da Cunha Melo, e deve ser devidamente cultuada e tratada como um patrimônio das nossas letras, assim como fazem os italianos com o soneto e a terça rima.

A Retranca, como já mostramos em outros artigos, se caracteriza por conter quatro estrofes com a seguinte disposição: 4,2,3,2, com oito sílabas métricas por verso, onde o quarteto tem assonâncias no segundo e quarto versos; o primeiro dístico com assonâncias aparelhadas; o terceto com assonâncias no primeiro e terceiro versos da estrofe e um dístico final com rimas consonantais.

Conforme o ensaísta e crítico César leal, Alberto da Cunha Melo verificando que um time de futebol é formado por 11 jogadores, criou uma nova forma fixa, a única inventada até agora em nossa língua o que não deixa de ser uma façanha, uma vez que se trata de fato cultural mais importante do que sete vitórias numa copa mundial de futebol. E celebra a descoberta, afirmando que embora o esporte não deixe de ser atividade relevantes na cultura de um povo, não devemos compará-lo com a força da poesia.

Somente Alberto poderia confirmar tal intenção, mas a afirmativa de César Leal é pertinente e provável, uma vez que o próprio nome da “forma fixa” possui relação com o futebol.

Seria então a Retranca (e a poesia em si) uma via por onde o poeta se protege dos ataques desse mundo pós-moderno, pobre de reais valores? Preferimos acreditar que sim, e ficamos com as palavras do poeta e ficcionista Aleilton Fonseca quando diz que “a poesia é a legítima defesa e a condenação do poeta.(...) o exercício da poesia o torna um ser marcado, para quem os homens práticos olham com desconfiança e disfarçada comiseração”.

Neste 13 de Outubro fez um ano que Alberto da Cunha Melo despediu-se deste mundo, no período vários poetas tornaram-se cultores da Retranca, ao ponto de já podermos falar ser possível a publicação de uma antologia de poetas brasileiros que escrevem dentro desta forma fixa. Alberto da Cunha Melo nunca esteve tão vivo, meus amigos.

Agora, os leitores poderão conhecer alguns destes poetas e seus poemas.

 

Acessem o link:

http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3659



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 13h45
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TRÊS PERGUNTAS PARA

ZÉ RODRIX

COMPOSITOR, CANTOR,

PUBLICITÁRIO E ROMANCISTA

 

 

Gustavo Felicíssimo – Zé, em que momento você acredita que suas atividades como compositor, publicitário e romancista se amalgamam?

Zé Rodrix O tempo todo. Não vejo nenhuma diferença essencial entre nenhum processo de criação, porque a criação é um ambiente contínuo no qual eu me movo de modos diferentes, adequando minhas ferramentas criativas para o objetivo desejado. A meu ver, nenhuma atividade criativa pode ser considerada mais elevada ou menos importante que a outra, por mais que exista preconceito de quem as observa, na maior parte das vezes sem saber do que se trata. Estar em pleno exercício criativo é a minha regularidade diária, sem a qual eu não seria eu mesmo: criar como forma de sobrevivência do corpo, da mente e do espírito, evoluindo, crescendo e me modificando a cada instante, tornando-me finalmente o objeto que surge da minha própria criação, através daquilo que eu realizo. Meus romances, minhas canções e meus jingles são facetas diversas de minha própria capacidade criativa, assim como meus desenhos, pinturas, peças teatrais e até poemas, cada um ocupando o seu espaço específico no mundo real, mas todos partindo de uma mesma fonte original, eu mesmo.

 

GF – Há quem diga que a música popular foi quem tomou o espaço já diminuto da poesia. O que você acha dessa afirmação?

ZRO equívoco, a meu ver, é dos poetas, que de maneira geral têm tido inveja do aparente sucesso popular dos músicos, e se dispuseram a enfiar a sua poesia de maneira artificial na seara musical, prejudicando tanto a poesia quanto a música. Não creio que exista nenhuma semelhança entre poesia e letras de música, por exemplo: são objetos artísticos perfeitamente diversos e diferentes, apesar de partilharem algumas semelhanças no uso da língua e dos truques criativos. A partir de determinado momento, quando letristas passaram a ser chamados de poetas, (equivocadamente, a meu ver) os poetas se sentiram à vontade para se transformarem em roqueiros, usando a música popular como veículo para sua poesia que, de maneira geral, funciona muito mal quando cantada, mas seria excelente se permanecesse nos limites reais da poesia escrita.  Agora, vai ser preciso muita coragem da parte dos poetas para romper este vício da popularidade e retomarem seu processo poético original, de forma a recuperar o verdadeiro valor da poesia, pois, como disse Fernando Pessoa, “a popularidade é um plebeísmo”. Insuportável para a tão necessária verdade e permanência poética.

 

GF – Você acredita em um processo de alienação das massas provocado por uma possível e anunciada “ditadura midiática”? Essas questões chegam a te incomodar?

ZRDe forma geral, esta “ditadura midiática” é papo muito velho, herdado do Manifesto do CPC da UNE em 1962, que já era cópia quase fiel do Manifesto por Um Realismo Socialista, de Jdanov, escrito na URSS em 1947. Nela se estabelecem como inimigos todos os processos de abrangência comercial da arte tanto burguesa quanto popular, descartando tanto a “arte burguesa’ quando a “arte popular” com sendo veículos de alienação, e pregando a necessidade de uma “arte popular revolucionária”, que nunca existiu realmente, a não ser como as experiências artificialíssimas da MPB,  seguindo os passos de uma “brasilidade” estabelecida pela outra ditadura, a de Getúlio Vargas.

            A tentativa de estabelecer um “padrão popular” de música feita no Brasil, por exemplo,  já tinha sido intentada por Lourival Fontes, diretor do DIP durante o Estado Novo, e este padrão de “brasilidade”  é uma barreira que permanece ainda vigente como parâmetro dos artistas nacionais, porque foi assumido como sendo “real” pelo manifesto da UNE, que preferiu a ditadura de Vargas à Ditadura Militar, pretendendo que a primeira fosse melhor que a segunda, no que se equivocaram profundamente.

             O sistema de comunicação midiática mundial já pretendeu ser dono das vontades de todos, menos de quem o critica, ainda que quem o critique também esteja sob a égide de uma mídia específica e tão daninha quanto a que verbera. Acusar a mídia por todas as mazelas do mundo, menos as próprias, indica apenas um desconhecimento profundo das possibilidades humanas de livre-arbítrio, escolha, e capacidade de decisão. Tudo está, a meu ver, nos limites da consciência e responsabilidade pessoais,  e para entender isto seria preciso estudar com atenção o momento em que Sartre, tendo durante algum tempo proposto como ideal a figura do “artista engajado”, a substituiu pela do “artista consciente”, já no fim de sua vida.

             A Arte não está sob o controle de nenhuma mídia, se verdadeiramente for Arte, e nem os usuários desta mídia se tornam escravos dela, principalmente agora que a revolução tecnológica permite a livre expressão das individualidades através da escolha pessoal. Há inúmeros artistas que, filiando-se a esta ou aquela escola, se consideram mais artistas que outros de outras escolas, ao mesmo tempo em que partilham de práticas e usos que condenam em seus desafetos, aplaudindo-os em si mesmos como “exemplo de pragmatismo ideológico”. Dois pesos, duas medidas, infelizmente valorizados e divulgados como sendo ideais pelos que chamo de Perpetuadores dos Dogmas e Defensores dos Mitos, estes que, sendo parte da mídia, se especializaram em expor seu gosto pessoal ou filiação ideológica como sendo a Única Verdade, tornando-se divulgadores de seu próprio e equivocado Evangelho, tentando convencer a quem os ouve de que a Arte de que gostam nos foi doada diretamente por Deus e que todas as outras são imitações diabólicas desta.

             Os seres humanos, atualmente, e a cada dia mais, têm infinitas formas de fazerem suas próprias escolhas, através das liberdades individuais, deixando-se envolver por aquilo que os agrada e rejeitando aquilo que os desagrada, por mais que as teorias vigentes ainda  insistam em nos impor o gosto por aquilo de que não gostamos, como necessidade de sobrevivência da “kultura”. Neste sentido, as classes populares são muito mais livres, porque em seu território possível, selecionam e elegem como sendo SUAS as formas de Arte que lhes tocam mais de perto, em vez de seguirem, obedientemente, os parâmetros que algum evangelista lhes imponha como sendo os únicos possíveis, da maneira como a classe média tem feito.

 

Sobre o entrevistado: http://pt.wikipedia.org/wiki/Z%C3%A9_Rodrix



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 10h54
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TRÊS PERGUNTAS PARA

NICOLAS BEHR

POETA

 

 

GF – Como é que, para você, a cidade de Brasília emerge na sua poesia?

NB – Minha poesia não é refém de Brasília. Cheguei aqui aos 14 anos de idade, vindo de Cuiabá, uma cidade-não-planejada. Brasília foi um choque: decifra-me ou te devoro. Sair do mato pra cair na maquete. Minha relação com Brasília é difícil, como é difícil toda relação amorosa. Digamos que é um amor irascível. Hoje sinto-me parte da cidade, um pedaço de mim vaga por estas superquadras. Vou morrer aqui. Daqui não saio. Me sinto às vezes cobaia de um projeto modernista e digo: não é fácil morar num símbolo. Mas sobreviverei, com certeza. E quem sobreviver a Brasília sobreviverá a qualquer estação  extraterrestre que o ser humano queira construir em qualquer planeta.

 

GF – O que é que havia de favorável no final dos anos 70 para que seus “livrinhos” vendessem tanto?

NB – Meus “livrinhos” vendiam muito porque eram baratos. Hoje custariam talvez uns 3 reais. E eu tinha boas técnicas de venda, era um cara de pau danado e ia sempre em lugares muito receptivos a esse tipo de poesia-atitude: portas de shows, de peças de teatro, de escolas, em alguns bares. Mas já vendi dentro de ônibus. Não tinha medo do ridículo, não tinha medo de cara feia. Não me lembro de ninguém ter me tratado mal. Afinal, era jovem, imberbe, vamos dar uma chance ao moço! O ambiente político ajudava: havia censura, havia ditadura, havia opressão. E a arte responde bem à opressão! Havia muros a derrubar, preconceitos a vencer. E havia uma vida a viver. O poeta mostra sua cara. Isso é típico da chamada “geração mimeógrafo”, emparedada entre a frieza do concretismo e a ideologização da chamada poesia engajada. Era sim uma poesia de resistência, sem vínculos partidários. Flertando com o anarquismo, levemente punk. Hedonista.  Bons tempos!

 

GF – Sua atuação como poeta nesta época lhe rendeu uma prisão. Sob qual acusação você foi preso pelo DOPS e como se deu essa prisão?

NB – Existem duas versões: uma diz que os policiais do DOPS estavam à procura de um mimeógrafo que produzia os panfletos distribuídos pelo movimento estudantil. Como todos os meus livrinhos eram mimeografados, os “homi” deduziram: o poeta imprime seus livrinhos e produz os panfletos dos estudantes. Tanto que quando chegaram lá em casa no dia 15 de agosto de 1978 perguntaram logo pelo mimeógrafo. Outra versão, que eu aceito mais, é que fui denunciado por um professor de Educação Moral e Cívica, pois vendia muitos livrinhos em portas de colégio. Tanto que fui processado por “porte de material pornográfico”, sendo julgado e absolvido em março de 79. Aí voltei a publicar meus livrinhos mimeografados novamente, até 80, quando, de saco cheio de vender livrinhos, procurei emprego em agências de publicidade e consegui. Fiquei 6 anos nessa...



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 23h52
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