SOPA DE POESIA: GUSTAVO FELICÍSSIMO


TRÊS PERGUNTAS PARA

AGENOR GASPARETTO

SOCIÓLOGO, CONTISTA E EDITOR

 

 

Gustavo Felicíssimo – Gaspa, quanto a literatura que você produz possui da visão do sociólogo? Em outras palavras, dissocia-se o contista do sociólogo?

Agenor Gasparetto – Apenas produzi uma obra. Afora, isso, somos um todo, uma unidade, ainda que, às vezes, estilhaçada, fragmentada sob o peso dos múltiplos papéis que desempenhamos. Separações são arbitrárias, artificiais. É claro que a condição de sociólogo, consciente ou inconscientemente interfere no texto, embora não tenha intenções. Ao escrever, quis contar histórias. Conscientemente, no livro que escrevi, de sociólogo há apenas a inspiração original, a tentativa de homenagear um sujeito que fracassou no grande centro e que regressa para sua terra de origem para, em última análise, viver seus últimos dias e morrer. Adonias Filho, após conquistar as glórias na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, passou com sua parceira seus últimos anos de vida em Inema, perdido distrito do município de Ilhéus. Contudo, há uma diferença essencial: Adonias Filho voltou por escolha e não em razão da falta de uma, que é o caso dos meus “Regressantes”.

 

GFO Gasparetto editor está tendo motivos para sorrir?

AG – O mercado editorial é difícil para quem é pequeno, em um interior da Bahia. Contudo, a cada dia estamos dando o passo do dia e continuamos seguindo nosso caminho, não exatamente em uma Via Láctea de estrelas, mas tampouco em uma Via Crucis, apenas numa Via Litterarum.

 

GF – Todos os dias têm notícia de alguma editora brasileira sendo comprada por conglomerados estrangeiros, mas ao invés de autores brasileiros serem traduzidos e publicados lá fora, acontece justamente o contrário, sem nenhuma contrapartida, os desconhecidos de lá é que aportam aqui. Nosso mercado editorial está sendo colonizado da mesma forma que aconteceu com outras atividades financeiras?

AG – Nosso mercado financeiro é um dos menos globalizados. Se o fosse, o tom e o rufar dos tambores da atual crise seria outro por aqui. Bem, são regras do mercado. O mercado costuma ser cruel com os sonhadores, sejam eles escritores ou editores ou estejam eles em qualquer outro campo da atividade humana. E, no entanto, são os sonhadores que agregam um diferencial. Enfim, o mercado tem uma dimensão predatória muito forte. Creio que por trás da compra de editoras esteja a tentativa de melhorar as condições para abocanhar as edições de livros do MEC. Essa conta vale muito para quem é grande. E, convenhamos, se trata de conta medida em milhões, dezenas e, às vezes, centenas de milhões de exemplares. Quanto ao que se edita, grandes editoras têm olhos para mercados grandes. O que é local precisa de alternativas locais para emergir. E não entra em questão aqui a qualidade. A qualidade pode não estar necessariamente no mundializado, ou ao menos, difundida amplamente para um domínio lingüístico, como o espanhol, por exemplo, mas exatamente no profundamente local. Somente a persistência e o tempo poderão transformar um valor literário social e historicamente situado num fenômeno mais amplo, nacional ou mesmo mundial. Contudo, aqui estamos no plano da exceção, não na regra. Em suma, para quem é pequeno, o processo é lento, difícil, mas possível. No longo prazo, somente o universal sobreviverá e este poderá ser o local de hoje e não o transformado em fenômeno de vendas, em função do marketing e da mídia. E isto é ruim para o escritor de talento, porque acaba sendo nome de suntuosas obras arquitetônicas quase sempre depois de morto, virando grife valiosa, e quando em vida seria expulso até de seus passeios. Ironias do destino. 

 

Blog do Gasparetto:

http://agenorgasparetto.zip.net/



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 19h39
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TRÊS PERGUNTAS PARA

ALEILTON FONSECA

POETA, CONTISTA E ROMANCISTA

MEMBRO DA ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA

 

 

Gustavo Felicíssimo – Para você, Aleilton, quais podem ser as chaves de acesso à poesia?

Aleilton Fonseca – O acesso à poesia se dá por dois fatores iniciais. Primeiro, por indução e incentivo à leitura, através de recomendações de um leitor mais experiente, sejam pais, parentes, amigos, professores. Depois, esse acesso se dá através da sensibilidade pessoal, quando a própria pessoa, uma vez iniciada na leitura de poemas, vai fazendo suas descobertas e ampliando paulatinamente a sua experiência de leitura e de compreensão de obras e autores, tornando-se um leitor cada vez melhor. Nem todas as pessoas se identificam com a natureza do texto lírico, embora algumas vezes na vida possam experimentar momentos de percepção e fruição poéticas. Gostar de ler é uma tendência que precisa ser estimulada. Gostar de ler poesia é uma vocação rara, quase um dom; um sopro de uma sensibilidade especial. O acesso à poesia é misterioso; exige uma conjugação de sensibilidade, inteligência e capacidade de percepção para além do lógico, prosaico e cotidiano.

 

GF – A poesia é a legítima defesa do poeta?

AF – A poesia é a legítima defesa e a condenação do poeta. Se perder a voz poética, ele pode entrar em sofrimento existencial. Anula-se, tornando-se um ser comum, em meio à multidão sem rosto. Por outro lado, o exercício da poesia o torna um ser marcado, para quem os homens práticos olham com desconfiança e disfarçada comiseração.

 

GF – Que relações você percebe estabelecer entre a sua obra em prosa e a sua poesia?

AF – A princípio, prosa e poesia são diferentes modos de produzir linguagem literária; mas já não se repelem entre si; ao contrário, muitas vezes se juntam, amalgamam-se, na poesia prosaica, na prosa poética, na narrativa lírica, no poema narrativo. Na modernidade, definitivamente a prosa e a poesia fizeram as pazes; uma convoca a outra para andarem juntas nos textos. Tanto na poesia como na prosa, eu penso que sou um autor que parte de leituras da tradição moderna para dizer algo novo numa linguagem ao mesmo tempo trabalhada e acessível, simples e comunicativa. Quero ser simples, sem ser simplório. Meu objetivo não é complicar; mas sim encantar e impressionar o leitor. Mesmo que isso o incomode um pouco. Literatura é um diálogo cifrado à distância, no tempo e no espaço. O escritor escreve o que pensa e sente estar escrevendo; o leitor lê o que pensa e sente estar lendo. Cada qual forja seu texto, sua leitura, sua compreensão pessoal e intransferível do texto e da vida. O que lemos e sentimos, hoje, no texto de Dante, será o mesmo que ele pensou e sentiu ao escrever? Não, definitivamente não. Literatura é este mistério simples e insondável.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 14h07
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