SOPA DE POESIA: GUSTAVO FELICÍSSIMO


ILHA DE ITAPARICA

 

 

 

O poente anuncia estrelas,

a lua crescente e divina

ancorada no mar da ilha

onde é musa que a todos cala.

 

Sobre as águas uma jangada,

o lume dos barcos ao longe,

um pássaro voando à toa

e a vida vestida de organza.

 

Não há terra de leite e mel,

apenas tu, Itaparica,

em teu compasso natural.

 

Nada mais singelo, senhores:

nem canções falando de amor,

nem amores nascidos ao mar.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 17h56
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À maneira dos poetas de longo fôlego, Chico César escreveu o seu “Cantáteis – Cantos Elegíacos de Amozade”, o primeiro livro do até então músico, compositor e intérprete. São 1.551 versos heptassilábicos divididos em 141 estrofes. Segundo o autor, esse poema-livro foi escrito em São Paulo, nos últimos três meses de 1993, ou seja, alguns meses antes de gravar seu primeiro disco, o “Aos Vivos”, que só viria a ser lançado em 1995. Sua intenção inicial era fazer uma espécie de elegia para uma musa da cidade e depois percebe que a própria cidade de São Paulo também era musa do poema que fala dos abismos amorosos, da perplexidade e do encantamento do aventureiro que chega de fora e ali se instala.

 

 

ENTREVISTA COM CHICO CÉSAR

 

 

Gustavo Felicíssimo – Como você avalia a receptividade que “Cantáteis”, seu livro de estréia, teve por parte da mídia e do seu público ouvinte?

Chico César – Acho que o livro se beneficiou da surpresa. As pessoas não esperavam. Independentemente disso, recebeu boas críticas por parte de publicações especializadas em literatura e na imprensa em geral. Quem compra o livro normalmente o faz em shows ou recitais em livrarias. São pessoas que acompanham o meu trabalho na música e se sentem ligadas a ele de alguma maneira.

 

GF – Sendo paraibano, de Catolé do Rocha, imagino que seu primeiro contato com a poesia se deu no ambiente da Literatura de Cordel, como a mágica aconteceu?

CC – Acho que o cordel e as litanias do catolicismo popular de minha mãe, que mesmo de poucas letras lia e recitava conosco em casa. Em latim, inclusive. O meu imaginário foi se formando através desses veios: a literatura de cordel, com seus causos fantásticos de amor, cangaço e seres misteriosos, e a literatura religiosa. O Antigo Testamento é pura poesia, com muito sangue e permanente ameaça de anjos vingadores e as constantes questões familiares de irmão e pais dispostos a cortar o pescoço dos filhos para provar sua fé. Nele o próprio Deus, o criador, parece bastante descontente com sua criação e de vez em quando surge como se quisesse destruí-la. O Novo Testamento traz o Deus da bondade, mais otimista e que sacrifica o próprio filho para salvar a humanidade. Isso tudo é muito poético. Até mesmo as riquíssimas ilustrações do catecismo em que estudávamos para fazer a primeira comunhão nos dá pistas que mais tarde reencontramos na arte universal. E nem tudo é sangue na Bíblia, lógico, O Cântico dos Cânticos, um dos mais belos poemas de amor que tive a oportunidade de ler ainda criança, é uma das referências primeiras do meu “Cantáteis”. O fato é que ambas as fontes também fornecem esteio ético e moral bastante forte, além do aspecto estético em si.

 

GF - Você se lembra dos seus folhetos preferidos? Quais eram?

CC – “O Romance do Pavão Misterioso”, que é a história de um rapaz que se apaixona por uma moça que vive em outro reino e move mundos e fundos para se casar com ela, é uma de minhas preferidas. O rapaz termina por raptá-la num aparelho voador, desafiando o poder do pai dela. Acho fantástico este cordel. Outro de que gosto muito é “Viagem ao País de São Saruê”, em que o poeta descreve sua passagem onírica para um lugar de fartura e generosidade, onde escorrem leite e mel, e os peixes já vêm assados. Uma visão perfeita da Utopia gerada num ambiente de muita adversidade. Havia também aqueles folhetos só de uma folha que meu pai comprava aos sábados na feira de Catolé do Rocha e trazia para nossa casa no sítio Rancho do Povo. A família sempre se reunia em volta da lamparina e um dos filhos lia. Eu era o mais novo e aos cinco anos comecei a ler e logo me tornei o leitor “oficial” para a audiência doméstica. Acho que para meus familiares e até mesmo vizinhos era ainda mais comovente ouvir aquelas histórias tristes e rimadas na voz hesitante de uma criança. Havia uma, por exemplo, que contava a história de uma menina que morreu jogada pela mãe dentro de um cacimbão. Outra versava sobre a dor da despedida de um filho que deixa o interior do Nordeste e buscava a sorte em São Paulo. “Meu pai me bote a benção, mamãe me abençoe também...” – e por aí vai.

 

GF – Como nasceu e em que ambiente “Cantáteis” se desenvolveu?

CC – Escrevi esse poema em São Paulo nos últimos três meses de 1993, ou seja, alguns meses antes de gravar meu primeiro disco, o “Aos Vivos”, que só viria a ser lançado em 1995. Eu o escrevi como uma espécie de elegia a uma musa da cidade. Depois percebi que a própria cidade de São Paulo era ela também musa do poema, que falava dos abismos amorosos, a perplexidade e o encantamento do aventureiro que chega de fora e ali se instala.

 

GF – Podemos dizer que por sua estrutura e ambiência ele é um Cordel pós-moderno...

CC – Eu não vejo muito por aí. É claro que há a influência do cordel, mas para mim a maior referência é as cantigas de amigo. A própria estrutura das rimas não é comum no lance do cordel. Na verdade, talvez eu, como autor, esteja muito dentro do livro e não tenha o afastamento necessário para acomodá-lo de imediato numa categoria ou, ainda, criar uma categoria para enquadrá-lo. É difícil vê-lo no ambiente do cordel por que não conta uma história, não há antagonismo. E esse negócio de pós-moderno dá uma datada que não me deixa confortável. Na verdade não sou eu quem tem que dizer isso ou aquilo. Não posso categorizá-lo. Não consigo passar do ponto em que digo que é um poema. Ainda mais agora que me coloquei o desafio de musicá-lo para colocar no palco lá pro fim do ano que vem, sendo otimista.

 

GF – Então depois de ler “Cantáteis” nós poderemos ouvi-lo também...

CC – Pois é. Eu tenho mesmo dificuldade para aceitar que algo escrito por mim permaneça sem o suporte musical. Mas nesse caso é até natural. Desde o começo eu via o poema como semente lírica para uma canta. O título já trazia isso embutido.

 

GF - Esse trabalho deve estar sendo facilitado pela própria musicalidade do poema...

CC – O ritmo das palavras, sua sonoridade, claro que ajuda. Mas são 141 estrofes com a mesma métrica. É preciso estabelecer dinâmicas harmônicas e rítmicas para evitar que se torne enfadonho. O fato de não haver antagonismo também cria dificuldades para levar ao palco. Mas não deixa de ser um desafio bem interessante trabalhar música num novo formato, diferente da canção popular que se resolve em alguns minutos.

 

GF – Nesses mais de dez anos que o livro ficou na gaveta você mexeu no poema ou você é do tipo de escritor que não gosta muito de bulir na obra depois de escrita?

CC – Ficou um tempão do jeito que escrevi. Na hora de publicar, mudei alguns poucos versos. Eu gosto de mexer, remexer nas minhas letras de música. Eu fico constrangido de ser chamado assim de escritor por que até agora eu só escrevi um livro, este “Cantáteis”. Isso é pouco representativo, não é?

 

GF – Pra você existe muita diferença entre a poesia que atende a estética literária e a letra de uma canção que muitos críticos e poetas dizem não ser poesia?

CC – Dependendo do contexto “segura o tchan, amarra o tchan, segura o tchan, tchan, tchan, tchan, tchan” poderia ser poesia concreta. Digo isso sem deboche. O contexto é fundamental para compreender se uma coisa é isso ou aquilo. Não podemos negar que poemas e letras de música usam a mesma matéria, a palavra. A maioria das coisas escritas para serem lidas em silêncio já não soam bem quando recitadas, cantadas então nem pensar. Obviamente, o contrário também ocorre. Raramente uma letra de música funciona sem a melodia. Há exceções em ambos os casos, é claro. O que não quer dizer que uma seja superior à outra a priori.

 

GF – A linguagem do seu trabalho como músico e agora como escritor caracteriza-se por ultrapassar a fronteira dos rótulos, tão comuns e necessários à indústria cultural, no entanto artistas do Nordeste, como por exemplo, Lia de Itamaracá e Cordel do Fogo Encantado, quando ganham o Sul/Sudeste têm seus trabalhos taxados de regionais – Alceu Valença que o diga – ainda que eles se adaptem aos microfones e levem sua cultura para o contexto de palco. Será isso, ainda, uma herança da nossa literatura?

CC – Não. Isso é uma visão geopolítica de poder hegemônico criado para si pelo eixo Rio-São Paulo. Tudo que é criado fora desse eixo dificilmente escapa de ser rotulado como regional. Seja de Goiás, Rio Grande do Sul ou da Amazônia. O desejo de representar todo o Brasil através de alguns símbolos, como o samba ou a bossa nova, por exemplo, é fruto de um centralismo empobrecedor e autoritário. Isso não serve, não ajuda na compreensão do que somos. E somos vários. Diversos. Não consigo entender por que um power trio de rock de São Paulo é “nacional” e um trio de forró de Alagoas ou um trio elétrico de Salvador são “regionais”. Será que só porque é power o trio de São Paulo tem mais poder? Por que não admitir que a cena artística do baixo Leblon, no Rio, é “regional” já que a do baixo Roger, em João Pessoa, seria?

 

GF – Você pretende continuar a publicar seus poemas em livro? Tem algum inédito aí no bolso que você pode nos disponibilizar para ilustrar essa entrevista?

CC - Adoraria ter outro “Cantáteis” na manga ou mesmo outros poemas soltos. Mas não tenho. Só tenho letra de música. Estou mandando pra você essa, inédita em disco, que se intitula “Desejo e Necessidade” e abre meu novo show, que faço acompanhado pelas cordas do Quinteto da Paraíba. Se servir, publiquem a vontade.

 

Entrevista publicada originalmente

na Revista Poesia & Afins



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 17h39
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OUTRA ODE

 

ODE AO HOMEM PROGRAMADO

 

O bicho era o homem

Manuel Bandeira

 

Para que a ética, o amor e a moral

se os nossos valores não são nossos,

se informados por informação alguma

e pobres de reais valores como agora?

Se apenas beija-flores em floresta incendiada

choraremos nossos mortos.

Vejam as pedras ao longo do rio;

elas nos permitem passar à outra margem,

mas precisamos pulá-las

e molharemos um pouco as pernas.

Não quero com isso advertir o mundo,

mas quem quiser que viaje pela Serra da Canastra,

que vá ver onde nasce o São Francisco.

Não sou Bazin! Estou mais para Truffaut;

sonho com a conciliação entre arte e indústria.

Ademais, é necessário saber sobre a função da arte,

que não existe escola isenta, neutra ou pura,

que somos embalados e vendidos em mercados

determinados pela aferição da audiência.

Somos re-colonizados cotidianamente pela comunicação,

esfinge que devora os incautos

com seus programas e verdades homogeneizadas,

enquanto a apatia das universidades cria novos professores,

sábios mestres da verdade e da moralidade sem moral.

Somos feras nos esportes náuticos e automobilísticos,

construímos satélites, realizamos transplante de coração

e outras cirurgias sofisticadas,

mas não impedimos que nossos pares morram de fome.

Domesticamos bichos

e agora cuidamos da gente assim como cuidamos dos bichos:

deixamos que ambos remexam o lixo.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 19h29
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Sempre li os artigos de Adelino Kfoury no Jornal Agora, de Itabuna, pois, para mim, são eles o fruto de muito conhecimento, pesquisa e de uma estilistica elegante; também uma forma de conhecer melhor a história desta região, a qual tenho muita estima e laços bastante fortes. Devo dizer que chocou-me algumas das suas declarações inseridas na entrevista publicada neste mesmo jornal no dia 05 de Junho, pois depois de afirmar que possui o maior acervo existente sobre a história da nossa região e de ter esclarecido inúmeros fatos obscuros em sua história, decepcionado, afirma estar "encaixotando tudo para pensar na melhor forma de extinguir..." E tudo por pura falta de apoio, diz Adelino.

Não me admira que o historiador não tenha conseguido publicar a obra referida na entrevista, uma obra importante, penso, pois esse mundo prático trata o conhecimento como algo descartável. Que o digam os poetas. Ademais, vivemos em um tempo paupérimo de reais valores, fugaz, e isso reflete em todos os segmentos da sociedade, inclusive na cultura e em nossas universidades também.

Confunde-se os avanços tecnológicos com avanços da humanidade, o que nos dá um falso sentimento de progresso, porém, o que de fato acontece é que, em termos humanos, a humanidade caminha para trás.

            Escrevi estas linhas com o intuito de mostrar a todos, principalmente aos amigos grapiúnas, um poema, uma pequena Ode que compus em homenagem a Adelino Kfoury.


PEQUENA ODE PARA ADELINO KFOURY



Não sobrevive uma cidade sem memória,

sem cultura e sem história,

sem passado não há presente,

não há futuro ou glória.

Por isso é necessário cantar a saga do teu povo,

demarcar terreno, desvendar mistérios,

pois dentro da noite propícia para as conquistas,

onde virtude e carências se confrontam,

a história espera para ser escrita.

É quando os deuses, mais distantes que parecem,

descem ao templo dos homens

                                    (e nos encontram em dissabor,

não vivendo a bem-aventurança.

E embora não haja tempo perdido,

tantos são os significados perdidos no mundo,

tantos são os espaços para se reconquistar

que o nosso brado não pode e não deve estar recluso.

Ainda que não reconheçam tua graça,

que as intempéries te cubram de mágoas

e as pessoas se mostrem ambíguas,

eu canto em teu louvor.

Canto por reconhecer o teu valor

e para que não te sintas tão violentado

quanto as águas do Cachoeira.

A este tempo, Adelino, se incorporaram alguns demônios,

inevitáveis demônios que assolam valores mui profundos.

No entanto reside no tempo a tua redenção

e na gente Grapiúna uma gratidão infinita

que se mostra e se expande em longos suspiros.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 12h09
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Recebi faz poucos dias um e-mail do poeta Silvério Duque apresentando-me um poema, segundo ele, de um autor iniciante. Trata-se do músico saxofonista, e agora poeta, James Vasconcellos de Lima. James é de Feira de Santana e pelo fato de ser músico traz consigo algo extremamente importante e fundamental para um poema; o ritmo, a melodia, o andamento, elementos que conhece muito bem e os aplica com eficácia como podemos constatar no poema abaixo, um octossílabo afórmico, podemos dizer.

Percebemos que James possui personalidade e consciência literária que o afastarão, sem dúvida, dos achismos e demais “ismos” que insistem em infectar nossa poesia.

 

Ótima descoberta do meu amigo Silvério Duque.

 

INSTANTES 

 

 James Vasconcellos de Lima

 

Todos os dias, vivo o agora

como se o fora desde sempre.

 

O amanhã é uma memória

tão imprecisa quanto ausente. 

 

Bom seria se a cada instante

um riso invadisse minha face

 

e a cada segundo, ao semblante

obscuro, um brilho adentrasse.  

 

Se a cada instante, por menor

que seja, a alma fosse um mar

 

maior que o céu e, todo o sol,

um brilho contido em um só olhar... 

 

Ah! Todos os dias passarão

como os ribeiros, toda a vida

 

deslizará por entre as mãos

ainda lisas... Divididas...? 

 

E o tempo vagante a roer

cada semblante, cada olhar... 

 

e olhamos, em volta do rio,

as pedras, secas, ao ocaso,

 

e ao rosto, o pleno desvario.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 14h02
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DEU NO CORREIO DA BAHIA

 

A sucessão de Zélia Gattai

O baiano Antônio Torres está entre os candidatos à cadeira da escritora na ABL

 

Por Margareth Xavier

 

      “O mais difícil foi vencer a tabaroíce, a timidez do interior. Mas acho que esse pode ser o momento. Acho que Zélia me apoiaria. Jorge também”, disse Antônio Torres, que pela primeira vez concorre a uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL), na vaga deixada pela escritora Zélia Gattai (1916-2008). Nascido no sertão baiano, o escritor, com mais de uma dezena de livros publicados, é um dos três nomes que já formalizaram sua candidatura.

      O prazo para inscrições, de 60 dias, foi declarado aberto imediatamente após a Sessão de Saudade, em homenagem a Zélia. Além de Torres, também já oficializaram sua inscrição, até ontem, o jornalista e crítico musical Luiz Paulo Horta e o colunista Jeff Thomas, considerado “eterno concorrente”.

      Outros nomes, segundo a própria ABL, já manifestaram interesse, entre eles, Cláudio Murilo, Cleonice Berardinelli, Ziraldo e a crítica de teatro Bárbara Heliodora. A cadeira 23, deixada pela memorialista, tem como patrono José de Alencar e como fundador Machado de Assis. Já ocuparam o lugar os baianos Otávio Mangabeira e Jorge Amado, companheiro de Zélia, a quem ela sucedeu – num episódio inédito na instituição, no qual a viúva substituiu o marido.

      Para se inscrever é preciso ser brasileiro, ter publicadas obras de reconhecido mérito em qualquer gênero da literatura ou livros de valor literário, critérios ditados pela ABL. Encerradas as inscrições, o novo ocupante da vaga é escolhido em eleição secreta e para vencer precisa obter metade dos votos mais um. Nesses dois meses, o candidato inscrito aproveita para fazer sua “campanha”, que inclui visitas de praxe aos imortais para angariar votos. A posse é marcada em comum acordo entre a academia e o eleito.

      Torres, hoje radicado no Rio de Janeiro, só se decidiu após ceder a inumeráveis argumentos do escritor e conterrâneo Aleilton Fonseca, que considera que a vaga deveria continuar sendo baiana. Estímulo extra foi o do imortal Carlos Heitor Cony, de quem vieram preciosas dicas sobre os protocolos a serem seguidos para a inscrição. “Tomei uma decisão audaciosa e isso acaba gerando muita apreensão.

      Fui muito bem recebido na academia quando me inscrevi, mas agora é que vou começar a conversar com as pessoas”, comenta.

De espírito leve, o autor, nascido em 1940, fala com humor do que o espera nesses dois meses. “Quanto ao ânimo para enfrentar esse desafio, me sinto um garoto, mas fico envergonhado diante de sabidos. Foi preciso criar muita coragem para vencer a timidez interiorana, e olha que fazer isso de cara limpa é muito mais difícil”, diz ele, que afirma ter parado de beber e de fumar.

      Brincadeiras de lado, seu principal incentivador, Fonseca, bateu firme na tecla da candidatura, ressaltando o lugar que o escritor ocupa na literatura brasileira. Entre as dezenas de títulos publicados, destaque para Essa terra (1976), narrativa que inaugurou a carreira internacional do escritor, ao ganhar edições em diversos países, incluindo França, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e Itália. O cachorro e o lobo (1997), Um táxi para Viena d’Áustria (1991) e o recente Sobre pessoas (2007) são outros títulos que marcam sua produção literária, que começou em 1972 com Um cão uivando para a lua.

      Na Bahia - Na Academia de Letras da Bahia (ALB), onde Zélia Gattai ocupava a cadeira de número 21, a data da Sessão de Saudade ainda não foi marcada. De acordo com o protocolo da casa, só podem concorrer à vaga pré-candidatos que obtiverem pelo menos cinco indicações dos membros da instituição. A eleição acontece 30 dias após sair a lista de indicados. Além da cadeira de Zélia, ainda estão vagas na ALB as cadeiras 7, de Pedro Moacir Maia, e a 37, do ex-senador Antonio Carlos Magalhães.

 

23/05/2008



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 11h28
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A FOTO

 

 

Pro Damário Dacruz

 

 

A foto que eu vi

não é mais;

não mais

a foto que eu vi.

 

Avaliar a foto

não alivia

o fato,

nem o que eu senti.

 

Admirar a foto

não vale

a falta de luz,

a gente sem voz.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 11h46
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No dia dos namorados...

 

TRANSE

 

Para Noélia Estrela

(minha metade)

 

 

Como é doce a lembrança de outras faces,

bem mais doce, porém, a imagem desta

que em meu ser encontrou pequena fresta

e adentrou de mansinho, sem disfarces.

 

Delícia que me leva à realidade,

assegura a certeza na ilusão

vivida, no porvir e na visão

que me encarcera, assim, noutra verdade.

 

Embora eu não estranhe a voz do medo,

esse ser que atormenta e também cega,

vivo agora o que ao homem não se nega:

entregar-se ao amor sem arremedo.

 

Apesar de sentir o véu da morte

insisto em ser senhor da minha sorte.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 21h17
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CANÇÃO DE FOGO RIDES AGAIN

 

Por Ildásio Tavares

 

Conheço há algum tempo Miguel Carneiro e me compraz seu talento criador e sua dignidade de ser si mesmo; sua capacidade de enfrentar de cara o pantanal literário; sua valentia. O conhecia como poeta, inclusive de versos traduzidos ao francês. Descubro-o como ficcionista, dramaturgo e cineasta, e até pergunto se esta última não é uma veia de Riachão de Jacuípe, terra do imenso Olney São Paulo, tão cedo roubado de nosso convívio, e dos filhos deste Irving (que também já partiu) e Ilya, parceiro de Miguel no curta que tem o nome do seu rincão.

 

Mas é o ficcionista que me chega às mãos, agora, para a leitura prazerosa e cativante, O Coronel já não manda mais no trecho, uma novela calcada no cinema direto do sertão; em seus personagens arquetípicos e emblemáticos que Miguel soube, com justeza, retratar. E com aquela justeza pertinente, orgânica, de dentro pra fora, em que o grotesco supera o pitoresco e a deformação ganha da simples caricatura – é muito mais uma forma de expressionismo forte do que a exploração do anedótico. Os personagens de Miguel vivem. Na abertura da novela, em pouco mais de uma página, Miguel traça um perfil cinematográfico – glauberiano – do Coronel Trazibulo Fernandes da Cunha (olha só o nome) em que desce a detalhes que só um sertanejo poderia conceber. Depois de descrever, minuciosamente, o traje do Coronel, o narrador conclui: “Tinha a estampa de um barão da renascença veneziana”, o que agrega um elemento de fantasia ao processo, um comentário de Comedia dell’Arte.

 

Mas é justamente pelo território do dramático que trafega a carruagem de Miguel, bem como as diligências do velho oeste, descortinando a interação da paisagem adusta do sertão com a paisagem sempre rica dos seres humanos que ganham até genealogia na novela, mesclando elementos de ficção a elementos históricos, e que, salvo erro ou omissão, a família de Miguel comparece  ao pódio. Vejo a preocupação de amarrar a narrativa ao real, sem contudo partir para a mera fotografia ou reportagem. Miguel narra e distorce. E nisto é ajudado pelo domínio que tem do linguajar sertanejo que esgrime com perícia, palavras e expressões corlocalistas que tingem a novela.

 

Este clima expressionista descamba afinal para o realismo mágico, bem a vezo do misticismo católico deste povo do interior, quando surge em cena a figura do espírito de Antino Soares, do Padre Viriato e de São Roque, este primorosamente descrito a partir de sua imagem no tradicional santinho, com o cachorro lhe lambendo as feridas. Fecha-se o mundo surrealista. As potências transcendentais se apresentam para combater o mal imanente. A novela de Miguel é mais um capítulo da luta do bem contra o mal, do povo contra seus opressores. Com o technicolor verdadeiro do sertão.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 18h03
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SHEAKESPEARE REVISITED

 

Tradução de Silvério Duque

 

UMA PARÁFRASE MINHA COM HONESTA E ALTIVA

SINCERIDADE DO ENTUSIASMO

 

 à Lucifrance Castro, por sua existência... 

 

To the onlie begetter of these insving sonnets…

all happinesse and that eternitie promised.

 

THOMAS THORPE

 

 

                                                         SONNET

 

When I do count the clock that tells the time,
And see the brave day sunk in hideous night;
When I behold the violet past prime,
And sable curls, all silvered o’er with white;
When lofty trees I see barren of leaves,
Which erst from heat did canopy the herd,
And summer’s green all girded up in sheaves,
Borne on the bier with white and bristly beard,
Then of thy beauty do I question make,
That thou among the wastes of time must go,
Since sweets and beauties do themselves forsake
And die as fast as they see others grow;

 

And nothing ‘gainst Time’s scythe

                                       (can make defence
Save breed, to brave him when

                                       (he takes thee hence.

 

 

                         SONETO

 

Quando a hora soa em míseros desvelos,

em noite horrenda se consome o dia,

em prata se convertem meus cabelos,

a flor, à foice, entrega sua alegria;

já sem folhas eu vejo o tronco altíssimo,

que outrora fora sombra ao manso gado,

e ir-se em funéreo passo, e em pêlo alvíssimo,

o que era verde estio, então, ceifado;

ponho-me a perguntar por tua beleza,

que se consumirá na vã ruína,

como acontece a toda Natureza,

que a todo ser vivente é dura sina;

 

pois nada a afastará da mão do Tempo

fora a prole... a assistir teu passamento.

  

 

SILVÉRIO DUQUE:

Nascido em Março de 1978, graduado em Letras pela UEFS, ajudou a fundar e integrou o grupo de declamação Os Bocas Do Inferno, além de coordenar a Escola de Música da Sociedade Filarmônica Euterpe Feirense. Publicou “O crânio dos peixes” (Edições MAC/2002) e “Baladas e outros aportes de viagem” (Edições Pirapuama Ltda./2006). Seu novo livro “Ciranda de sombras” está no prelo.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 19h30
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TORQUATO NETO

 

  

 

Fôra feito uma pedra

contra a ondina atirada,

vagou feito uma pedra

pelo rio maltratada.

 

Não era pedra altiva,

era o rio já morrido,

sem água compassiva,

só um rio esquecido.

 

E ainda que sem vida,

qual flores sobre si,

tinha a face exaurida.

 

Tinha versos proscritos,

esquecidos no tempo,

censurados, preteridos.



Escrito por Gustavo Felicíssimo às 18h38
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OCTÁVIO MORA

É um dos grandes poetas injustiçados da nossa língua. Estreou em poesia com o livro Ausência viva (1956). Depois publicou Terra imóvel (1959). A esses se seguiram Corpo habitável (1967), Pulso horário (1968), Saldo prévio (1968), Exiliurbano (1975) e Oda amarga y otros poemas (1985). Diplomado em Medicina (1956), Sociologia (1967), Comunicação (1971), também atuou como roteirista. Exerceu durante alguns anos a profissão de médico e aposentou-se como professor titular de Literatura na UFRJ. 

 

ULISSES

 

Porque volvió sin regresar Ulises

M. A. Asturias

 

        Ulisses em Ítaca, vivo ausente

Talvez seja resíduo da viagem,

mas é tão pouco minha esta paisagem

que só posso estar longe desta gente:

Se foi minha, coraram-na tão rente

que a memória mudou toda a folhagem —

falávamos idêntica linguagem —